quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Uma foto e sua ligação imaginária com Brasília

Dei de olhos nessa fotografia, dias atrás.
Ao deter-me nas flores postas à frente da pintura “natureza morta”, logo saí a imaginar interpretação dos elementos presentes.
Então, no primeiro plano, mais aparecem as rosas artificiais, adonando-se do espaço de maior visibilidade e que me lembram... Ah, o poder político de Brasília, aquela bolha de falsidade e cinismo com sinistros objetivos, tentando pintar painel cor-de-rosa da situação nacional aos menos informados. E àqueles que piamente acreditam em tudo o que sai na televisão, na mídia.
Mas aos belos botões vermelhos das rosas autênticas mal coube um ponto lateral. Simbolizam os brasileiros, inclusive a minoria de políticos, preocupados verdadeiramente com o País, mas para o lado empurrados pela força assaltante da corrupção.
Bem, a pintura emoldurada falaria de um Brasil desejoso de renascer como lindas telas de figuras humanas em paisagens de justiça e bem-estar, paz e solidariedade.


Roma locuta, causa finita

Essa expressão latina, do direito romano, para quem não se lembra, quer dizer mais ou menos isso: se o tribunal de Roma falou, a causa está finda, terminada.
Pois tenhamos presente que a condenação de Lula e de outros processados, em primeira instância, não quer significar que tenha havido término da causa.
Pode ser que haja aumentos ou diminuições de penas e mesmo absolvições, pelos tribunais superiores, o que não se deve ignorar.
Pois em homenagem ao estado de direito e à necessária paz social, aguardemos que fale nossa Roma, isto é, Brasília pelo Supremo Tribunal Federal. Passadas em julgado as sentenças, será a hora da alegria ou tristeza, da conformidade ou da decepção.

Almiro Zago

Uma boa palavra?

Para o nosso tempo, tenho muito apreço pelo substantivo sensatez
(1. Qualidade de sensato; bom senso. 2. Cautela, previdência, prudência. 3. Discrição, reserva, circunspeção.) Dicionário Aurélio.
A primeira acepção, a mim parece, já basta para o bem agir.

Almiro Zago


Eclipse solar ou romance astral

Almiro Zago
No infinito, imenso amplexo
tórrido de amor 

e ausente nexo.
O Sol amoroso cede a cena
e sua amada, a Lua plena
em fugaz conquista
gloriosa desfila em
palco colossal.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Assim falaram meus netinhos

Cena 1:

      Parque Infantil, verão, em Capão da Canoa:
    Mariana, entre seus 4 para 5 anos, concorda em ir para casa, deixando o balanço, mas firma condição:
     — Só se você me leva, vovô, eu to muito cansada.
     E então, carreguei no colo a doce netinha por alguns minutos.
     — Tu caminhas um pouco, agora, né Marianinha, o vovô tá cansado.
     — Ah, não, eu to cansada... 
     — Marianinha,  eu  não sou forte como o teu papai,  sou um velhinho...
     E a menininha, já no chão, pronta para andar:
     — Então se você está velhinho, você vai morrer?
     — Não vou morrer, não.
     — Mas se morrer?
     — Ah, eu vou ficar triste, mas vai demorar pra isso acontecer.
   Meses depois, em sua casa em São Paulo, Mariana esforça-se para abrir um potinho de iogurte, mas as pontinhas da tampa se rompem, e ela procura abrir com os dentes:
     — Deixa o vovô  ajudar, querida.
     — Ah, isso é muito complicado pra um velhinho...                                     

Cena 2:

Preparando fogo

     Porque o frio de um anoitecer de julho aconselhava,  o netinho Alex, 7 anos, com  interesse e entusiasmo me ajudava na preparação das achas de lenha para fazer fogo.  Nessa ocupação, conversávamos acerca dos cuidados que o menino deveria observar  para não bater a cabeça nas bordas da lareira. Poderia machucar-se e sentir dor.
     — E até pode morrer alertou o Alex.
     E, em seguida,  fazendo um ar sério:
     — Quando você morrer, vovô, em vou no seu túmulo com uma flor na mão e vou dizer: coitado…
     — Mas se eu estiver em  cinzas numa urna, o que você vai fazer?
     — Então eu faço um foguinho no lado.

sábado, 19 de novembro de 2016

Cabeça Branca mai più?

Para a ex-futura 2ª edição revisada e ampliada de Mínimas Confissões.
Aos amigos:
Edgar Ferretti por declarar no facebook: “tiro o chapéu pros caras que assumem seu grisalho”; e
Cláudio Abreu – um desses “caras” de invejável  cabeleira nevada.

Almiro Zago

Ah, como gostaria de ter os cabelos brancos para com eles bem viver.

Meus nem tantos fios alvos, a timidez quase os esconde. Porém, deixam-me sensação de abandono os muitos cabelos em fuga que temem não sei o quê, quais fugitivos da guerra do Iraque, ou famintos retirantes africanos.

Resignado, ao curso dos anos tenho acompanhado as revelações do espelho desde as primeiras levas de capilares emigrantes a formatar a tonsura de Santo Antônio. Já os mais recentes fugitivos partem em voo baixo e na pele, brevemente ex-couro cabeludo, fazem autocapina, abrindo espaço tipo floresta de eucaliptos: cobertura ao alto e solo de vegetação ausente.

Pediu desculpas o sonho da cabeleira branca, pois a figura típica de avô grisalho em meu semblante ninguém verá.

Conforta-me a certeza de que meus netos seguirão com seu amor e afeto pelo nonno, indiferentes à carência ou à cor da cobertura capilar.


13/11/2016

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O sol pintou lá em casa

Almiro Zago


Enfastiado de tantas artes em minha pele, o sol, em sábado olímpico, veio fazer arte, porém bela arte, aqui em casa.

Descendo a curva do poente, brilhou o sol na borda de espelho perto da janela. E o espelho fez refletir os raios de luz na parede adiante, como se em mescla de cores pintasse pequeno quadro de rara beleza. 

Já a sombra do vaso de flores finalizou a obra, e um instantâneo registrou a singular e espontânea expressão do belo. Todavia, dizem meus olhos, a imagem fotografada ficou pontos abaixo da natural. Ah, se a foto parece tremida é por causa da emoção do fotógrafo...


Certa rosa vermelha e as flores de Ronsard e Manuel Bandeira

Almiro Zago

“Foi para vós que ontem colhi, senhora,
Este ramo de floras que ora envio.

Não no houvesse colhido e o vento e o frio
Tê-las-iam crestado antes da aurora.”


Licença, caros poetas, mas a personagem do soneto carecia, em seu jardim,  de flores para colher como essa em exposição. Sem crestar, resistiu a rosinha vermelha  aos ventos, ao frio  das noites de Caxias do Sul, na última semana do inverno, a rigor vestida para receber a primavera.  Fria era  a manhã de 22 de setembro, quando um clic para fotografia simbolicamente a colheu na frágil roseira junto à  casa de minha família, onde vivi  até casar. Ah, isso  foi no século passado, e faltam dois anos para somar cinco décadas...

Paráfrase do Soneto de Ronsard, de Manuel Bandeira

“Foi para vós que ontem colhi, senhora,
 Este ramo de flores que ora envio.
Não no houvesse colhido e o vento e o frio
Tê-las-iam crestado antes da aurora.

Meditai nesse exemplo, que se agora
Não sei mais do que o vosso outro macio
Rosto nem boca de melhor feitio,
A tudo a idade afeia sem demora.

Senhora, o tempo foge... o tempo foge...
Com pouco morreremos e amanhã
Já não seremos o que somos hoje...

Por que é que o vosso coração hesita?
O tempo foge... A vida é tão breve e é vã...
Por isso, amai-me... enquanto sois bonita.”

***

25/09/2016


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Faz bem ler a bula

Almiro Zago

Bateu vontade de escrever alguma coisa e saí a pescar assuntos. Na mídia, falavam de corrupção, assaltos, matanças aqui perto e no Oriente Médio, diziam de terremoto na Itália, do impeachment de Dilma Rousseff. Nalgum canto por aí, dormitaria a motivação para ir ao tema clima político, aliás, campo onde muitos vivem encerrados nos fortins de suas ideias e posições impermeáveis, mandando ao exílio palavras como ponderação, diálogo, tolerância e seus significados.

O olhar na caixinha de remédio à minha frente, qual bip programado, lembrou-me de algo a fazer: cuidar de certos sinais emitidos pelas minhas pernas, afinal por elas sou carregado, narrando pequenas vicissitudes pessoais. Ao menos, salvo ao autor, este texto nada além de chateação levaria aos leitores.

E, num átimo, emergiu da memória algo que se passara comigo há algum tempo, um exame visual e crítico do estado de finura dos membros inferiores, pelas calças disfarçados. Sem aviso, tocou-me a autocomiseração, mas cessou ao faiscar na mente fugidio consolo: guardavam semelhança, pelos à parte, com as pernas das modelos. É, sim, em comum, elas e eu exibíamos par de caniços andantes, a revelar, no meu caso, indesejável magrez, palavra apropriada, acreditem.

Vai bem dizer que a esse estado físico, nem mesmo em momentos depressivos buscado, cheguei em alguns meses, ao largo de regimes programados ou dietas indicadas. Mas sinta, você que chegou até aqui, andei me alimentando de tudo o que de saudável apetecia. Entretanto, deixei de prestar atenção ao essencial: daquele tudo, comia muito pouco.

Deu nisso a convivência com certo mal sem diagnóstico, daqueles que a ninguém leva direto à tumba ou à urna de cinzas. Não bastassem desagradáveis manifestações, como greve intestina, passou a afetar o paladar, reduzindo vontade e prazer de comer.

Exigiu minha rendição a realidade, pois alguém que, segundo vozes familiares, já era magro, perdera  quatro quilos e meio. Por sua vez, o médico, depois de exames disso e daquilo, deixando de lado receituário, ordenou: trata de comer! Está bem, mas o apetite não ouve ordens, nem se comove com sorrisos

Ainda bem que a “repórter” não me viu nessa fase. Refiro-me a certa senhora que se considera amiga da gente, porém pessoa chata, insistentemente perguntinha. Numa das últimas vezes que a vi, não tendo a sorte me ajudado a desviar caminho, fui por ela submetido a um extenso questionário. Começou perguntando pela Irene, depois pelo filho, interessou-se por minha filha e os filhos dela, os meus netos. A cada resposta, brotavam pretextos para outras indagações. Tudo deveria ficar bem esclarecido.

Entretanto, “memorável” foi o fecho da entrevista:

— E tu, como vais?

— Comigo, tudo bem.

— É, agora sim, mas uns tempos atrás tu andavas decaído.

Por certo, ter-me-ia* achado “mais decaído” e chamaria o Samu.

Pois nesse indigesto processo, senti belo consolo ao notar a economia do dinheiro aplicado em vinhos. Porque as papilas gustativas só me passavam acidez, o degustar do néctar dos deuses conheceu o esquecimento. Vi evaporar-se uma das alegrias da vida.

Em clima de falsa anorexia, aborrecido era o sentar à mesa, sentindo o apetite descer ao nível dos sonhos daquelas mulheres que tanto sofrem para perder peso.

Resguardando minha imagem, asseguro não ter incorporado o hipocondríaco, já o complexo de vítima nem cafezinho tomou comigo.

Mas aí veio o sábado de Páscoa. Paramos para almoçar num restaurante de beira de estrada e para chegar à portaria, caminhei, tendo à minha frente um sujeito idoso, alto e magérrimo. Às suas costas, imaginário cartaz reproduzia conhecida frase “Eu sou você, amanhã.”.

Soube, em momentos, o significado de impressionado, dolorido e triste por dentro. Súbito, então, em pensamento repetia: não, não quero ficar desse jeito.

Passada uma hora, talvez, surpreendi-me durante o almoço por quase desconhecida sensação e sem notar escapuliu-me a frase: como é bom comer quando se tem fome!

Fora o primeiro passo para recuperação que só viria após deixar de tomar, com a devida cautela, determinado medicamento.

Aconteceu-me ter ingressado no pequeno percentual de pessoas que sofrem determinado efeito colateral de remédio descrito em extensa e tenebrosa bula.

E assim a melhora foi chegando de mãos dadas com o alívio pelo perecimento do temor de encontrar certa “repórter” por aí.
                
                           ***********

* Qualquer semelhança com usos de certa figura não terá sido mera coincidência.
28.08.2016                        


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Dois lados da gaiola

Almiro Zago

Ter em casa gaiola com passarinho, tempo houve, era assim como manter cachorro hoje em dia, embora não se visse todo esse interesse comercial que envolve a lida com os caninos. Deveria escrever pets? 

Da infância, vem a recordação de meus irmãos mais velhos fazendo um viveiro para aprisionar pintassilgos, que, aos bandos, frequentavam algumas plantas semelhantes ao girassol, de nossa horta, para se fartarem de sementinhas. Empolgado, participava da colocação de alçapões para apanhá-los, porém vitimados sempre eram os mais jovens, embora torcêssemos por algum astuto cabecinha preta. Depois, em sua prisão, debatiam-se tanto na busca da liberdade que acabavam morrendo. Ah, como isso me entristecia, embora se achasse normal prender os pequenos alados por egoísta deleite.

As coisas foram mudando, outra consciência se formou, chegando-se à mentalidade de proteção. Foram-se gaiolas e espingardas.

Lembrei-me disso tudo certa manhãzinha ao acompanhar pousos e decolagens de muitos passarinhos nas árvores transformadas em pracinha de alimentação do passaredo, perto de meu ponto de observação.

Num distraído levantar voo, certa avezinha pardacenta, bico preto, não identificada, pousou na rede de proteção da janela, sem notar minha presença no lado de dentro da vidraça. Ágil, perscrutou tudo o que lhe interessava e, num bater de asas, desapareceu.

Pois, naqueles poucos segundos, veja a ironia, por força da rede imaginei a sensação de estar dentro da gaiola, e o pássaro em liberdade. Nem quero pensar se a aparição da ave desconhecida queira dizer de vingança tardia dos pintassilgos mortos no viveiro, mas, ao fundo de minha consciência, uma luzinha de remorso reacendeu.

****


10.10.2015

Ressonância com arte

Almiro Zago                                 

Numa dessas deprimentes manhãs de outubro, a chuva, essa visita abusada, não conseguiu me infundir temores de enfrentar o trânsito complicado para um exame de ressonância magnética.

Por isso, à hora marcada e com a antecedência pedida, abri a porta da recepção da clínica e, por instantes, desconfiei de ter errado de endereço. À minha frente surgiu um lugar que mais parecia um salão de artes, bom de espaço e adequadamente iluminado.  

Capturando meu olhar, as paredes exibiam quadros de bons pintores, inclusive um Gotuzzo. Cerâmicas e esculturas completavam o qualificado ambiente.

E aí o que seria tempo de espera, agradavelmente, consumiu-se na apreciação das obras de arte, como se estivesse numa bela exposição.

Chamado para a sala de exames, percorri um corredor com seus muros laterais mostrando muitos e belos quadros, e eu ia me esquecendo do que ali fora fazer.

Talvez meia hora depois, ainda estático, deitado no interior da máquina, ao som das insistentes batidas do aparelho em ação sobre meu crânio, formulei a plausível hipótese de que o inventor desse sistema de exame deveria ser, ou há de ter sido, grande apreciador do chamado rock pesado.

Afinal, uma forma de arte, também. 

*** 

Sidi Center, Rua Prof. Freitas e Castro, 481.
10.10.2015

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Ah, se o espelho ajudasse

Almiro Zago

Faz algum tempo, andei lendo belos textos de escritores famosos contando, com inteligente senso de humor e aquela fina ironia, fatos que os despertaram para a velhice chegando.

Agora, talento e qualidade à parte, não soube de nenhum dos autores ter vivenciado um feito tão insólito quanto o ocorrido a certo aprendiz de cronista, forçando-o a reconhecer-se na fase do natural declínio do corpo e da mente.

Pois no friozinho da manhã soavam rápidas as passadas em minha direção. Era um tanto perturbador o que ouvia, assim, como se alguém me quisesse alcançar. Os apressadinhos toques nas pedras do passeio denunciavam passos de salto alto.

Em pouco, vulto em aproximação se fazia perceber; um pouquinho mais, e um par de pés sobre dez centímetros de taco fino ia me deixando para trás. Ainda que de tênis estivesse, meu caminhar mais não rendia, salvo sensações bem conhecidas pelos vencidos de Gre-Nal.

Certeza nem tenho, mas pode ter acontecido lá pela entrada dos meus 70. Todavia, guardo o registro de ter sido essa a causa que, definitivamente, me levou a admitir: estou ficando velho, o que para você, talvez, novidade nem fosse.

Eppure sono contento, no entanto, estou contente, como diria a voz de Edoardo Vianello em “O mio signore”, canção italiana dos anos 1960, acessível via Internet. Obviedades fora, só envelhece quem vive, ou melhor, sobrevive nesta realidade assinalada por fortes traços de barbárie, a despeito dos fantásticos avanços científicos e tecnológicos.

Outros sinais, não decifrados, me haviam chegado anteriormente, como aquele revelado neste mesmo blog na crônica Senhor,senhor. Porém, nada com a força persuasiva do caso aí de cima.

Ah, em tempo!, o lado bom existe, sim, e o que mais enternece o coração e amacia o viver  chama-se netos.

Sem aviso, soube por intuição que nas faixas da terceira idade há rituais a observar. Em atenção a um deles, enfrentei, no recente abril, as cataratas, não as do Iguaçu, nem a cascata de Galópolis, mas aquelas dos olhos, um procedimento cirúrgico inescapável para muitos dos enquadrados nesse estágio.  

Por obra dessa intervenção médica e pelas maravilhas da ótica, ou óptica?, passei  a enxergar,  a ver tão  bem  como  se fora o adolescente sonhador.

Mas em vista de meu desdém por um indiscreto efeito colateral, descuidei  do preparo psicológico e fragilizado compareci ao pouco amável confronto no espelho — entre o novo no olhar e o velho na figura…

Eppure, estou contente!    

*** 

Maio de 2015  



quinta-feira, 16 de abril de 2015

Assaltante alado

Almiro Zago

O caso só não ganhou manchetes, tal qual a corrupção, a violência, as invasões de apartamentos do “Minha casa, minha vida” pela elementar razão: a mídia desconhece o passaredo e vice-versa.

Foi assim:

Na casinha de joão-de-barro pousada num ressalto de parede do prédio vizinho, eram vistas, por seguidos dias, suspeitosas entradas e saídas de pardais. Já ia formando mau juízo de dona joana, embora ela nunca aparecesse, quando me veio à lembrança que os companheiros furnarius rufus joão e joana , de intensa labuta na construção de sua morada, terminam por abandoná-la tão logo seus filhotes ganham os ares.

Intuindo isso, imagino, certo pardal e sua pardoca escolheram para preparar seu ninho exatamente a porta da ex-casa dos barreiros. Ao redor, a toda hora, voava e pousava pequeno bando, por certo de amigos do novo par, sempre alertas para conter frequentes investidas de um atrevido bem-te-vi.

Na manhã da última escaramuça entre essas aves, e eu vi, os passarinhos da guarda piavam desesperadamente, esvoaçando em volta do agressor, também conhecido por pitangus sulphuratus, que bateu asas em astuciosa retirada.

Ao sol brilhoso, passados uns quantos minutos, ouviu-se outra zoeira da pardalada. Porém, dessa vez, mal pude ver o bem-te-vi em voo ascendente, levando no bico o ninho do casal de pardais. Que malvadeza*!

O caso só não ganhou manchetes, tal qual a corrupção, a violência, as invasões de apartamentos do “Minha casa, minha vida” pela elementar razão: a mídia desconhece o passaredo e vice-versa. Além do quê, a ética da testemunha ocular veda delação.

Pois daí em diante passei a ter aquele belo pássaro, de topo de cabeça negro, como agressor gratuito dos pardais e por ladrão, tipo La gazza ladra**, da ópera de Rossini. Defesa de seu território não teria sido a motivação do assalto porque havia ele permitido o erguimento da moradia do joão-de-barro.

Se noites insones não tive, vivi recorrente sentimento de injustiça por causa daqueles conceitos negativos. Afinal, desde guri, tenho apreço por esse passarão de peito amarelo e de canto onomatopeico, o que imita seu nome popular. Vencida alguma reflexão, fiel ao direito de ampla defesa, decidi, em pensamento, pela reabertura do caso, em tentativa de pacificar a consciência.

Outra seria a verdade? 

Formulando hipóteses, bateu-me a ideia de que o bem-te-vi teria praticado o ato acreditando estar em solidária defesa de bem de terceiros, isto é, do par de forneiros, os construtores da moradia, pretensamente invadida.

Significaria dizer que não fora delituosa sua conduta.

Sim, a conclusão veio afagar meu senso de justiça, todavia a luzinha da dúvida segue piscando.

****                                                           

* Qualquer semelhança com ações humanas terá sido mera coincidência.
* * Gazza: ave da Europa que costuma apossar-se de coisas brilhosas.

14/04/2015

  

segunda-feira, 16 de março de 2015

Bandinha da Gol

Ou o bom humor faz diferença

Já se fazia noite naquele sábado sete de março.

Pelo portão 12, do aeroporto de Congonhas, alcançamos a porta do avião da Gol, do voo 1216, das 20h20, que nos levaria de volta a Porto Alegre. 

As boas-vindas a bordo, recebemos de um comissário e duas colegas aos sorrisos soltos.

Integrantes da categoria prioridades, a Irene e eu fomos os primeiros passageiros a chegar. Sem ter pensado nisso antes, fingindo ar de decepção, perguntei ao moço: e a banda de música?

Pois aí, revelando invejável presença de espírito e inventividade, o comissário passou a soprar um imaginário trompete, sendo instantaneamente acompanhado pelas aeromoças, cantarolando e ensaiando passos ritmados… Claro, tudo para dar vida à reclamada banda e nos fazer alegre e carinhoso agrado e uma divertida recepção. 

Que música tocaram? Ninguém me pergunte.
Mas isso nem tudo é.

Aproximava-se o voo de seu final, quando o comissário trompetista nos disse, teatralizando a cena, que estava muito sentido porque não pudera oferecer um jantar “ao casal em lua de mel”, pois na hora do serviço de bordo* eu estava adormecido...

Pouco depois, ao desembarque, a despedida aconteceu ao som de breve performance da originalíssima banda, que nos deixou tocados pela brincadeira tão bacana. Sem dizer da boa lembrança.

Bem queria que a Gol soubesse da espontânea encenação improvisada por três de seus bons funcionários pintando aos nossos olhos bela e simpática imagem da empresa, coisa nem sempre fácil para a publicidade.

Agora, quando você viajar de avião, invente sua pergunta aos tripulantes da recepção. Tente pedir pela banda de música ou de rock, pela sanfona, guitarra. Se vai funcionar, é outra conversa.
                                                     *******
*A Gol vende lanches.

Nota:
Voltávamos de São Paulo com o Fernando, depois de festejar o sexto aniversário do nosso neto e sobrinho Alex, o irmãozinho da Mariana, filho da Gabriela e do André.


(10.03.2015)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

De mal com o sol

Almiro Zago

O rosto no espelho examinei como se pintasse o autorretrato. Afinal, o momento era de apertar o tubinho da substância que iria corromper meu visual por certo tempo. Se a noite era feia e fria, torcia para que a tanto não chegassem minhas feições.

Paciencioso paciente, segui a prescrição médica e, noite após noite, minha face, o nariz e a testa receberam a pomada, cujo princípio ativo, seletivamente, deveria agir contra as afecções da pele pré-carcinoma.

Então, psicologicamente preparado, sabia das manchas vermelhas, seguidas de ulcerações, para, ao final, resultar na eliminação das “sementes” de câncer de pele.

Essa aborrecida situação, e tudo que ainda viria, calava em mim como castigo do sol por minha tez clara e omissão de cuidados contra seus raios de efeito cumulativo, ao longo da vida.  Por certo, a carga de risco foi amenizando a contar dos primeiros anos 1990, na época em que aquele “bichinho” deu avisos de que me seguiria vida afora.

Alego em defesa ter vindo da era da ignorância sobre os malefícios da indiscriminada exposição aos raios UVA e UVB. Como se isso fosse pouco, ainda havia quem pelo corpo passasse bronzeador para amorenar-se rapidamente.

Mas hoje, a despeito da abundância de informações disponíveis, ainda se vê muita gente desligada, indiferente aos perigos que a derme pode esconder.

Meia dúzia de alterações, ou pouco mais, viriam colorir meu semblante, dizia minha expectativa. O desmentido trouxe manchas e marcas às dezenas, numa invasão de figuras de imprecisas formas em vermelho, vermelho arroxeado, como se um irônico Salvador Dali, em momentos de mau humor, se divertisse a testar tons rubros numa tela, no caso, a minha cara.

Mesmo assim, salvo eventos pontuais, andei de bem com esse processo, e em minhas andanças só me lembraria da sofrível aparência facial por algum olhar indiscreto.

Cogitei máscara para sair à rua, mas, temendo ser confundido com determinados manifestantes, desisti.

Em tom franco, fui esclarecendo às pessoas amigas, aos conhecidos com quem me encontrasse. Já nos cumprimentos, percebia o alívio das mulheres, ao alertar: sem beijinhos!...

Persisto na esperança de medalha por superar a prova das insistentes ardências e intermitentes coceiras. Imaginem como foi duro conter a tentadora vontade de coçar, de arranhar!...

Em semelhante clima, acompanhei a Copa do Mundo, mas por horas me esquecia das feições desfiguradas quando via as imagens de horrores em Gaza.

Por várias vezes transitei à beira de crise de identidade em ambientes espelhados, porque o instantâneo da memória fotográfica parecia em dúvida ao reconhecer a imagem refletida.

Ninguém pense em exagero. Tive 53 noites de desamorosos encontros com o mesmo frio espelho na tarefa de passar o medicamento sobre as manchas que iam ganhando feridas secas, enquanto no íntimo rondavam sensações sadomasoquistas.

Soube das cores do alívio ao chegar à última aplicação de pomada.

Passados alguns dias, tal qual folhas no outono caíam as casquinhas da cútis ressequida. Assim, pude exibir aspecto facial limpo nos abraços do Dia dos Pais, faceiro porque, após passagem pela estação feiura, recuperei minha imagem de sempre. Nunca me sentira tão bonito...

A transitória perda estética, as ardências e coceiras, a obstinação compensou, disse o Dr. Bartelle, pois por um bom tempo meu rosto ficará livre de carcinomas.

Ah, deixei de postar foto no “Face” sabendo que ninguém mais controla o que na rede cai, e seria terrível se minha feia imagem passageira vagasse por aí pela eternidade.

Depois, ficaria sem assunto para a crônica.

Crônica escrita em 11.08.2014.




quinta-feira, 8 de maio de 2014

Quando a arte revela o ser

Almiro Zago

Quem no Google pesquisar “obras de arte feitas por doentes mentais” ver-se-á diante de  centenas de pinturas, colagens ou desenhos criados por pessoas  que sofriam de alguma das doenças da mente. Impressionante é o caso de Arthur Bispo do Rosário, que por mais de 50 anos viveu recluso num hospício do Rio de Janeiro, e seus trabalhos mereceram reconhecimento dos círculos culturais do país. Já falecido, o artista plástico levou a vida acometido de  esquizofrenia paranoide.

Mas, na Internet, ninguém encontrará, e eu tampouco sei qual seja,  o diagnóstico da pessoa que minha atenção prendeu durante caminhada no parque, numa das primeiras manhãs de abril. Privilegiada  testemunha de sua performance, pude ver que seu talento não passava pelas artes plásticas, pois surgiu em plena representação teatral.

À vista de toda gente que olhos para ele tivesse, sentado a um banco estava o sujeito, tendo esparramado ao seu lado e sobre as pernas um saco de plástico com seus pertences materiais e  sua invisível carga de solidão.

Ao modo de bom aluno de reposicionamento postural  e expressão serena,  olhava fixamente para o objeto, que parecia um livro, segurado com ambas as mãos descansadas sobre as tralhas. Assim, deixava-se ver absorto, embevecido numa leitura quem sabe de atraente história  e enredo empolgante.

Deixei de ver de perto para não quebrar o encanto, mas poderia dar-se que lendo não estivesse. Porém, a aparência de quem já não paga passagem de ônibus  ajudava a tornar verossímil a figura de atentíssimo leitor.

Gravada na mente essa imagem, segui mais leve em meu caminhar, sequer imaginando que aquela não fora  apresentação isolada.

Deu-se que na manhã seguinte, antes das nove, em outra ambientação, mas no mesmo parque, o anônimo ator surpreendeu com algo tipo 2º ato de peça teatral de título ignorado, também de cena única, mas seguramente de sua autoria.

Aparecia ajeitado num banco perto do arvoredo, entre o indefectível sacolão de sua mudancinha e  um pequeno triciclo de plástico  rosa e verde, com rodas azuis,  e,  batendo  um pedacinho de pau numa latinha vazia,  se  esforçava  para marcar o ritmo de samba. Faceiro e sorridente, ia cantarolando  alguma coisa para sua plateia imaginária, ao jeito de velho sambista, com o grisalho dos cabelos curtos encimando sua negritude.

Espectador passante, me senti sorrindo, sem nada suspeitar sobre o que estaria à minha espera  na  manhã do terceiro dia.

Vinha o sol vencendo seu litígio com as nuvens, oito horas passadas, quando o inesperado tomou os contornos da cena do ato final  da  já conhecida peça:  o homem alto e magro, em roupas simples,  surgiu  a passos lentos no espaço da segunda encenação. Sob um braço, carregava aquele triciclo de plástico rosa e verde, e com a mão livre fazia girar delicadamente a rodinha dianteira do brinquedo, sussurrando palavras quase inaudíveis. Na figura de adulto, tudo nele revelava sensibilidade e encanto de criança. Talvez criança se sentisse. Ou, quiçá, esse papel quisesse desempenhar.

Ganhei do acaso a chance de apreciar,  de ser tocado pela paz e a suave alegria dos três atos de espontânea peça. Ou, por outra, belos quadros emoldurados de poesia do criativo ator desconhecido,  refúgio do doente  mental.

Tenho andado pelos mesmos lugares; dele, porém, não mais do que a lembrança.

Penso que a doença o tenha levado a representações por outros recantos da indiferente cidade, pois, como disse Arthur Bispo do Rosário, “os doentes mentais são como beija-flores: nunca pousam, ficam a dois metros do chão.” 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A tipuana da memória*

Almiro Zago

Vezes sem conta passeei à sombra de tipuanas frondosas indiferente à identidade dessas belas árvores que me guardavam do calor do sol. Se não me viesse algum interesse, jamais saberia que essa espécie de vegetal e minha história de vida andam enrodilhadas pelas raízes.

Tocado por gratuita curiosidade, passei a olhar folhagens e galhadas das alterosas plantas pelas ruas e parques, sem imaginar a surpresa que viria.

Pois a observação me levou a perceber que o tom verde-claro das folhas penadas e o tronco cinza-escuro de casca grossa e rachada há muito estavam inscritos em minha memória.

Por volta de 2006, bem me lembro, dispensada apresentação formal, soube-lhes o nome e pude concluir que fora à sombra de uma jovem tipuana a gravação na mente da imagem número um de minha vida. Significa dizer que é ela a mais remota de minhas lembranças, na faixa dos meus três anos.

Dirão que a criança fantasia, mas, acreditem, este não foi o caso, pois a árvore existiu e fez parte do ambiente ao redor de minha casa de colônia em Caxias, naquela época. 

Mas o fascinante, vejam só, é que passados tantos anos encontrei-me a viver em Porto Alegre na amistosa vizinhança de dezenas de tipuanas, simbólica ligação entre a tenra idade e esta apressada terceira...

Ao se cruzarem setembro e outubro, as tipuanas, acolhedor abrigo da passarada, aparecem revividas, e os altos ramos entrelaçados sugerem que ali, como na Penúmbria, poderia ser o espaço de Chuvasco de Rondò, personagem de O barão nas árvores, de Italo Calvino.

Dizem os botânicos que as tipuanas vieram do norte da Argentina e Bolívia, e entre nós são amadas pelo sombreamento e encanto paisagístico. Mas ao contrário do que se vê com jacarandás, ipês e paineiras, sua floração é notada apenas pelos tapetes amarelos que os milhões de pequenas pétalas caídas nas madrugadas tecem pelos passeios.

Por aqui, na Feira do Livro, só falam dos jacarandás floridos da Praça da Alfândega, mas ninguém se lembra da florada das tipuanas espalhadas pela cidade.

Ah, mas quem puder apreciar de cima, qual jardim suspenso, as copas onduladas de verdadeiro bosque, com o amarelo das flores e a verdura das folhas a partilhar a luz do sol, sentirá alegria e prazer estético comparáveis a quem aprecia os Jardins de Monet, em Giverny.

Se o vento enciumado desgrenha as melenas do arvoredo, a profusão de pequenas flores despetaladas derramam-se como flocos de neve dourada a enfeitar o chão.

Não sei quem as trouxe, nem quando chegaram ao Brasil, mas vocês não acham que está aí mais um caso de imigração que deu certo?

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*Título inspirado no romance de Luiz Antônio de Assis Brasil, A pedra da memória.
15/11/2013

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Dilma, Merkel, Hollande!, também fui espionado

Almiro Zago

Em tempos de Internet, celulares, tablets e afins, a espionagem voa à velocidade da luz. Em rasantes captura infinidades de dados e informações sobre tudo e todos, de governos, governantes e governados, de empresas.  Se a privacidade foi ao espaço, o espião pós-moderno deletou o fascínio do antecessor que empolgava escritores de romances policiais e roteiristas de cinema. Em contrapartida, a sua fantástica ação vem rendendo sérios problemas ao seu patrão. Por enquanto, os Estados Unidos. E olhem que nem os amigos de Obama escaparam da bisbilhotice eletrônica deles.

Ao que sei, a Presidenta Dilma foi a primeira vítima a estrilar, usando a ONU como caixa de ressonância das denúncias de violação de privacidade de pessoas e órgãos estatais. 

Viu-se, depois, na TV, nos jornais, nas redes sociais, a forte contrariedade de François Hollande e Angela Merkel, igualmente ofendidos pela indevida coleta de dados pessoais e dos seus governos pela turma da N.S.A. Itália e Espanha também não ficaram de fora.

Notem bem, aqueles dirigentes políticos foram espionados a distância e nem sabem exatamente o que viram os espiões. Sem dúvida, os cremes de beleza de Dilma e Merkel não foram tocados, nem seus objetos de uso pessoal. Tampouco Hollande teve reviradas suas cuecas e gravatas.

Mas comigo, tudo foi diferente, nada virtual. Abriram minha mala no domingo 15 de setembro, no aeroporto JFK, em Nova York, enquanto esperava embarcar para o Brasil. Só notei ao chegar em casa, ainda bem.

A minha querida e surrada mala vermelha, de tantas lembranças, foi revistada. Ao contrário de Hollande, Merkel e Dilma, estou sozinho, apenas com esta voz de locutor aposentado, sem mídia para repercutir minha indignação.

Mala de viagem, é para mim uma espécie de resumo do meu quarto que me acompanha aonde vou.

Ao perceber que o cadeado fora sacado, afastei os fechos com o espanto de quem encontra a própria casa de portas abertas pelos ladrões.  E aí deu-se a conhecer a sensação de ultraje, como se visse mãos estranhas revolvendo minha roupa, a limpa e a suja. E tocar na minha roupa suja é como devassar minha intimidade.

Menos mal que os agentes revelaram experiência no ramo, pois deixaram tudo arrumado, salvo os carregadores do barbeador e do celular.

Se Dilma, Merkel e Hollande ouviram vazias explicações de embaixadores, os meus espiões deixaram confissão escrita, em forma de aviso impresso em inglês e espanhol. O papelucho diz que eles têm permissão legal para busca de produtos proibidos em bagagens. Ah, sim, a finalidade era a de proteger a mim e aos demais passageiros do meu voo.

Meus olhos, que já iam umedecendo, num instante secaram ao ler que tiveram de inutilizar o cadeado – e não se responsabilizam pelo dano – porque só fazem isso quando a mala está trancada...

Dizem que viajar é cultura e aprendizado. Nessa ida a Nova York aprendi uma lição: não se tranca mala de viagem.

Claro, para facilitar o trabalho deles. Já os ladrões de aeroporto agradecem.

27.10.2013