quinta-feira, 10 de abril de 2008

A Janela

Karen Scopel



O celular tremia sobre a mesa, era ela, a terceira vez em um intervalo de poucos minutos, ele atendia: “Eu não preciso de ti, não gosto de ninguém me controlando. Chega Ana, pára de chorar, não quero mais falar contigo agora, mais tarde a gente conversa”. Recolocava o celular sobre a mesa e esperava que ela chamasse outra vez, todos no restaurante já haviam percebido. Tocava novamente. A moça do outro lado da linha, que não o deixava almoçar, devia estar desesperada, se descabelando, com a voz embargada pedindo que ele lhe desse uma chance, que não a deixasse assim. Era difícil imaginar o que teria de tão especial o rapaz que atendia àqueles telefonemas, não chamava a atenção por sua aparência, os cabelos desgrenhados, como se tivesse acabado de passar por um vendaval, os ombros curvados, fazendo com que aparentasse mais idade do que realmente devia ter, e os olhos, esbugalhados, dava para sentir o vazio que vinha de dentro deles, além disso, era estranho o modo dele falar ao telefone, alto e claro, como se quisesse que todas as pessoas ao redor fossem suas testemunhas. Um pouco antes de o telefone tocar insistentemente, ele ligou para Ana, pediu que ela reconsiderasse e que eles retomassem o namoro, ela, mais uma vez, lhe disse que gostava de outro e tudo entre eles estava acabado, então, ele programou o celular para despertar logo depois e assim sucessivamente, atendendo e tentando convencer o fantasma com quem falava de que o deixasse em paz. Ana era simpática e extrovertida, bem diferente dele, difícil compreender que tenham permanecido juntos por quase dois anos, morava com uma amiga e um gato, que ele não gostava, trabalhava como caixa num supermercado, tinha os cabelos negros e compridos que usava, quase sempre, num rabo de cavalo, as mãos bem cuidadas e as unhas pintadas com esmaltes coloridos. Adorava sair com as amigas, ao contrário dele, que não tinha amigos e se satisfazia ao fazer parecer que os tinha. Ele vivia num apartamento pequeno, no décimo primeiro andar de um prédio sombrio, com janelas estreitas e longos corredores. Saíam muito pouco, ele preferia assistir filmes na TV.

Após o almoço, ele não conseguiu voltar ao trabalho, foi para casa, sentou-se de frente para a janela, a vista dava para o paredão cinza do prédio ao lado. Naquela noite, como nas anteriores, ligou para ela, uma, duas vezes e nada, a colega de apartamento repetia “Ela não está.”, como se fosse uma gravação. Ele, então, ficava a imaginá-la com outro. Será que este outro gostava do gato ou ela tinha se desfeito dele? Não, ela não faria isso, provavelmente ele teria um cachorro e todos seriam felizes. Sua angústia era tanta que ele sentia vontade de gritar, mas, impossível. Tinha vontade de sair dali, se mudar, ao invés disso ia todos os dias ao supermercado, vivia um constante jogo de cabo de guerra consigo mesmo, um lado lhe indicando para ir ao encontro dela enquanto outro tentava impedi-lo, o lado vencedor era sempre o que o levava até lá, ele fazia suas compras, às vezes apenas um sabonete, e passava no caixa ao lado. Um dia , chegou mais tarde, Ana já não estava, deu meia volta e próximo à porta viu-a deixando o elevador, sorridente e apressada, foi atrás dela, chegando à rua, ela correu para um homem que a esperava, foi um abraço de dar inveja, um abraço grande, daqueles em que se fecham os olhos e cola-se o corpo no corpo do outro, foi desesperador, ele ficou ali, as pessoas saíam e esbarravam nele, parecia ter-se enraizado, petrificado pelo que acabara de ver, talvez tenha permanecido assim somente alguns instantes, talvez, horas, os dois já haviam partido abraçados e ele continuava a vê-los, mesmo em casa, sentado de frente para a parede cinza. Mais tarde, escreveu a primeira carta, na manhã seguinte colocou-a no correio e assim passou a fazer nos quinze dias que se sucederam, chegava do trabalho, sentava em frente à janela e escrevia para Ana, não teve resposta para nenhuma delas, na verdade, ela sequer as leu, foram todas para o lixo. Se tivesse lido. Ele sempre planejou tudo, sua vida já estava toda esquematizada, Ana desorganizou tudo, então, foi mais fácil deixar o trabalho, parar de lavar as roupas, em dois dias seu apartamento estava irreconhecível. Ela não o via mais, então, a barba podia ficar por fazer e a falta de banho não seria notada por mais ninguém.

Ana ficou sabendo quando o policial lhe entregou a última carta. Se tivesse lido as outras, saberia que todas traziam escritas as mesmas palavras: “Estarei te esperando, no último sábado deste mês, queria estar contigo, lembra o que vamos comemorar?” No dia em que começou a escrevê-las resolveu que Ana decidiria a sua vida, assim como a havia mudado quando se conheceram. Para aquele encontro, arrumou a casa, tomou banho, fez a barba e penteou os cabelos cuidadosamente, a noite veio e ele esperou o quanto pôde, a janela parecia estar mais estreita e ventava muito.

26.03.2008

terça-feira, 8 de abril de 2008

Encontro histórico

E os Mecânicos finalmente se encontraram, em quase sua totalidade, no Applause Café, ontem, em um delicioso happy hour.

Muita conversa filosófica, literária, cinematográfica, humana e até fofocas, regada ao chopp-promo de R$ 2,10. Hummm...

E o próximo já está marcadíssimo para 5 de maio, aniversário de 2 anos deste grupo de amigos amantes do escrever e do jogar alegre conversa fora.

Alguém mais se habilita?

terça-feira, 1 de abril de 2008

Everything is gonna change my world

Camila Canali Doval

Muitas coisas me modificam. Eu sei, muitas coisas modificam muitas pessoas. Mas obviamente algumas coisas modificam cada pessoa. Músicas modificam pessoas. Nem todas as músicas modificam todas as pessoas. Há músicas que me modificam muito. Há músicas que me modificam em determinados momentos e para sempre.

Hoje eu viajei até Viamão ouvindo músicas. Entre elas, O Caderno, do Toquinho. Sabe qual é?

Sou eu que vou seguir você
Do primeiro rabisco
Até o be-a-bá.
Em todos os desenhos
Coloridos vou estar
A casa, a montanha
Duas nuvens no céu
E um sol a sorrir no papel...


Ia tudo muito bem, aquela nostalgia clássica de quem foi criança nos anos 80, relembrando a capa do disquinho e a sensação de ouvir aquela voz gostosa falando alguma coisa sobre um tal de caderninho, que bem parecia com os meus caderninhos, mas eu não tinha consciência ainda para saber que eram exatamente os meus caderninhos.

Caderninhos que acompanharam a minha vida inteira, repletos de anotações coloridas, de desabafos escuros, de frases copiadas, de poesias inventadas, de segredos reinventados em códigos que até hoje eu sei.

Que eu nunca esquecerei.

Mas foi então que o Toquinho sussurrou com sua voz doce o trecho mais cruel que provavelmente ele já sussurrou na vida. E me doeu perceber que ele sempre sussurrara tal maldade em meus ouvidos e eu escutava, ingênua e crédula, julgando serem apenas palavras bobas de uma canção lúdica de criança, mas era e sempre será uma centelha de vida, em verdade, era o anúncio, era o aviso, era, de certa forma, o meu veredicto, que só eu ainda não conhecia e que só o Toquinho tinha coragem de pronunciar.

Sou eu que vou ser seu amigo
Vou lhe dar abrigo
Se você quiser
Quando surgirem
Seus primeiros raios de mulher
A vida se abrirá
Num feroz carrossel
E você vai rasgar meu papel...

Rasguei muitos papéis sem lembrar que eles estavam destinados a isso. Sim, os cadernos, os meus caderninhos, sempre foram o meu abrigo, a minha forma de escapar e de entender o carrossel que me engolia. Eu ia me modificando e os cadernos iam se modificando, os antigos modificavam os novos, eu ia modificando os cadernos e é óbvio que os cadernos, folha a folha, linha a linha, iam modificando a mim.

Chorei tanto hoje, no ônibus, escutando novamente aquela voz sussurrada, aquele prenúncio da futura mulher, que não é mais um futuro, que sou eu, feita de sussurros de carrossel de cadernos e de milhões de folhas rabiscadas rasgadas inteiras molhadas publicadas queridas queridas queridas.

A vida não é um brinquedo inocente. A vida nos deixa tontos. A vida é o que o Toquinho me mostrou que seria e eu fico feliz de não ter entendido antes. Ele nem queria que eu entendesse. Ele queria apenas acariciar o que eu era. Ele queria, apenas, louvar o que eu seria, antes de todo mundo. Ele queria, quem sabe, como eu também quero, que um dia alguém se soubesse modificado por suas palavras.

E os meus cadernos seguem comigo. Essa música desenvolveu em mim um absurdo colecionismo. Ele me pedia para não esquecê-lo em um canto qualquer e eu jamais poderia mesmo fazê-lo. Ainda tenho os meus cadernos. Fico angustiada cada vez que penso nas traças e no mofo que podem estar os consumindo. Não tenho coragem de abri-los. Não quero me ver corroída. Não quero me ter esquecida. Posso fazer terapia para perder o medo insuportável da morte, para aprender a conviver com ele, mas não posso fazer terapia para esquecer o que sou. Meus cadernos são eu. Desculpe. Mas eles são eu.

E eu sinceramente acredito que um dia as pequenas mãozinhas dos meus filhos irão folheá-los. E lê-los irá modificá-los. E vê-los ler fará de mim, então, diferente.