sexta-feira, 4 de junho de 2010

Amigos e histórias de amor



Almiro Zago

I - Paixão à primeira vista:                                                                                                                   
                                                                                        
Na bonita tarde de domingo, faceiros íamos, o Leo e eu, à  quermesse,  uma festa de igreja no bairro. Mas esclareço: outro era o verdadeiro nome dele. Nas conversas, entrava de tudo, inclusive e  especialmente  a ideia de arranjar namorada; afinal, aos 16 anos, como não conversar sobre isso?

Nem bem chegamos, e o Leo, sem esconder o entusiasmo, foi apontando certa guria de um grupinho, revelando-se caído por ela. 
- Qual, mesmo?   A comprida e magra, mais alta do que tu?
- É...
Claro, havia falado meio brincando, sem referências à beleza ou feiura da moça que, aliás, tinha um porte bem do estilo das modelos de  hoje em dia.
Aconteceu que ele ficou magoado, e eu custei a perceber a extensão do significado da sua lacônica confirmação.

Da festa, nada de interessante ficou para recordar. Porém, passadas umas duas semanas, encontrei o meu amigo de mãos dadas com a "comprida e magra", agora, sua namorada.

Pois não é que ele nem olhou pra mim?! Bem, depois daquela minha insensível franqueza, logo nos instantes em que ele provava a paixão à primeira vista, chateado é que eu não poderia ficar.

A despeito disso, ficaria tudo  igual entre nós, sem que me tivesse  retratado do infeliz comentário  por  nunca ter aparecido um momento favorável. É verdade, porém, que pouco nos víamos.

Mas nossa amizade vinha lá dos nove ou dez anos, quando o Leo, dono de uma bola de número 3, organizava um timezinho de futebol. Embora não pertencesse ao seu grupo, era sempre convidado para reforçar  sua equipe nas partidas mais importantes. Foi esse o período em que vivi dias de glória como goleiro, lá pelo final da infância a caminho da minha adolescência.

Já o Leo, desde cedo, perseguia um sonho: tornar-se mecânico de aviões. Tanto se preparou para isso que, chegando à maioridade, foi admitido a trabalhar nas oficinas da Varig, em Porto Alegre.

Sim, casou-se com a moça magra e alta, e com ela foi viver na Capital.
Dali para frente, nem me lembro se foram dois ou três anos, mas o certo é que não mais os veria com vida, pois a morte os arrebatou num acidente de carro em viagem a Caxias do Sul.

Nunca antes vira um casal sendo velado, coisa, para mim, inimaginável.
A patética cena, a meus olhos,  significava  o final de uma história de amor, da qual fora eu testemunha de seu nascimento.
Pena que tenha faltado com a cumplicidade de amigo.


II - Uma certa casa tirolesa:

Era o Jairo* um apaixonado  por  música e   filmes  mexicanos. Isso, numa época em que os cinemas brasileiros fartavam-se na exibição de películas com a marca Pelmex.  O moço, por exemplo, além de conhecer o repertório do, então, famoso Miguel Aceves Mejía, cantava e assobiava   as canções que o rádio tocava.

Seguidamente, mas não apenas nessas ocasiões, nos encontrávamos na volta para casa; eu, da escola noturna; ele, do cinema. E no caminho, contava em   detalhes a história do filme mexicano que havia assistido; falava dos atores e, invariavelmente, confessava-se atraído pela atriz principal.

Haveria de conhecer o México, - repetia com viva esperança.  E sonhos nunca faltam a quem, como ele, beirava os 17 anos, dois a mais do que eu.

Vencendo nosso percurso, em dado ponto nos separávamos: o Jairo pegava um atalho, ladeando uma casa nova, de arquitetura tirolesa, ou com essa intenção construída.

Fosse durante o dia, quem por ali passasse teria a seu alcance a  isolada moradia  de   janelas   abertas e, às vezes, com sua dona debruçada numa delas. Nunca a vira de perto, porém seria uma viúva, o que, para a minha pouca idade, significava mulher velha.

Mas aconteceu que o Jairo deixou de aparecer por uma semana, duas, três...
Teria ido ao México, sem nada me dizer?

Por ele, a outro amigo, perguntei.
- O Jairo? Tu não vais acreditar; ele foi embora com a viúva da casa tirolesa...
- Com uma velha?
- Não, não, é uma viuvinha nova.

Se os fugitivos foram felizes para sempre?
Como saber?
Do meu amigo, nada mais soube.

Mas pode dar-se que, debaixo de um "sombrero", esteja ele com sua viuvinha curtindo as praias de brancas areias em Acapulco.

*Nome fictício.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

As mães, quando morrem, vão pra onde?

Almiro Zago

Ainda que distraídos andemos, há certas comemorações que a mídia e os seus anunciantes não nos dão chance de esquecer.

Ninguém que abra um jornal, ligue o rádio ou a televisão consegue ignorar o Dia das Mães, no segundo domingo de maio. Em outros tempos, falava-se também do mês das noivas.

Mas a mídia não faz essa divulgação toda por ser boazinha; seu papel é faturar com a festividade e movimentar a economia, o que enche os bolsos de uns e esvazia os de outros.

Certamente, haverá corações cumulados de alegria e felicidade, motivados pelos presentes e a festa, ainda mais que os filhos, condicionados pelo consumismo, não sabem ficar na simples lembrança, no beijo e no abraço. Esses gestos, parece, pouco diriam desacompanhados de coloridos pacotes. É verdade?

Por outro lado, no contraponto, vemos aquelas pessoas que, por causa recente ou antiga, já não compram presentes para o segundo domingo de maio por ter-lhes a morte roubado a destinatária.

Persiste uma dor latente que a publicidade revolve, fazendo relembrar a circunstância, tanto mais dolorida para crianças e adolescentes, que ainda enfrentam, especialmente na escola, os preparativos e as festividades para o Dia das Mães... dos outros.

Já as homenagens para as suas mães de amorosas lembranças são feitas, e de flores diante de um retrato ou de uma lápide.

Sei bem do significado disso tudo porque, dois ou três dias depois de completar 12 anos, eu também fui jogado na minoria dos sem-mãe.

Porém, trago indelével na memória o acontecido na manhã do último domingo daquele ano de 1954.

Cedo, minha mãe, doente, mandou-me à missa. Ao voltar, ainda a certa distância, vi um táxi parado na frente de casa e meus pais indo em sua direção. Chegava mais perto, quando o veículo pôs-se em movimento. E minha mãe, voltando-se pra traz, com olhar triste, fez-me um aceno. Seria o derradeiro, pois estava ela sendo levada ao hospital, onde a temível leucemia a levaria à morte.

Sempre estive certo de que minha mãe habita o céu, aliás, como todas as mães quando morrem. E se disserem que o céu não existe, inventemos, então, um céu só para elas.

* *
(2/05/2010)

terça-feira, 20 de abril de 2010

No parque...

Almiro Zago
 
Um

Veio ensolarada, linda, a manhã de sábado.
E há muita gente: uns, como eu, fazem caminhada, outros correm;  alguns praticam exercícios; e há os que simplesmente espairecem, mateando. Mas a mulher de camiseta espalhafatosa  faz diferente: conversa com o homem   de sapatos, calças e camisa de manga longa.

Já é segunda-feira,  cedinho, perto das oito, e a mesma mulher aparece exercitando alongamento junto o meu  percurso. Vou dando minhas voltas e, numa delas, a figura surge acompanhada pelo mesmo sujeito do sábado, vestido como quem vai ao trabalho. Param num extremo do parque, de pé junto a um banco. Falam e falam ao modo de quem  troca  confidências...

Passados uns dois dias,  vejo repetida  a cena. Repetida, outras e outras vezes. Se maiores arroubos afetivos não se vê,   não  disfarçam  o jeito amoroso de uma relação, diria, clandestina, tanto ela, mulher beirando os 50,   quanto ele,  avizinhado  dos   sessenta anos.

Ao certo, nem sei quanto tempo isso durou, porém não mais foram vistos os  discretos amantes matinais. Todavia, ando frustrado por não saber o final da história. Teriam sido descobertos? Romperam a ligação?  Ou não mais precisam escondê-la?

*
Dois

É bom, faz  bem ter um cachorro, ouço dizer, mas há quem tenha dois ou mais. Também gosto desse animal, ainda que  platônica seja minha afeição. Nessa relação entre os amados cães e seus donos, sempre me assalta um porém:  eles nos forçam a compartilhar o lado escatológico da coisa. Podem conferir, nas primeiras horas da manhã,  eles transformam o parque numa "privada pública"  canina.

E como não se  pode  caminhar olhando para o alto,  eu pelo menos não sei, o que se nota, querendo ou não,   é a sucessão de cachorrinhos e cachorrões, guiados e observados por suas donas ou donos, a dar vazão às suas necessidades fisiológicas.

Pois numa certa manhã, aquele sujeito deve ter intuído isso: "se o cão pode, eu também posso". Apressadinho, aproximou-se de uns arbustos e abaixou-se para fazer a mesma coisa. Esclareço, deve ter sido, pois não cuidei de confirmar.

Mais não era do que  um  errante, pacífico e solitário doente mental, sem ninguém a importar-se com ele.

Certamente, muito se poderia escrever sobre o assunto, mas, de minha parte, vai  apenas a pergunta: quem é mesmo que leva vida de cachorro?

*

Três
                                        
Tépida e  iluminada,  passando vai  a  manhã  de domingo. O jogo de luz e  sombra entre o arvoredo e o  gramado e  as folhas pelo chão  compõe  telas que Claude Monet  e todos  os  impressionistas teriam sonhado pintar.

Mas a moça magra nada percebe. Sentada   a um banco,  óculos escuros no rosto imóvel,   olha  fixamente para frente na direção do laguinho.

E outra vez me aproximo  daquele lugar, e a jovem, em posição de estátua,  mostra-se alheia ao ambiente poético à sua volta. Seria a depressão fazendo pose para o retrato?

Mais um pouco, e outra vez  a moça e o banco  no meu repetitivo percurso. Ah..., mas algo mudou. E como! Livre dos  óculos escuros, ela brilha e conversa   com o rapaz que está de pé, à sua frente,  acarinhando a cabeça de seu cachorro grande. 
                                         
Agora, em minha última volta, observo progressos no animado encontro dos jovens ao tênue sol filtrado pela ramagem das plantas.

Ela continua  sentada no mesmo lugar do banco, mas  ele  acomodou-se ao seu lado. O cão, já não conta.

Evocaria a cena pinturas de Renoir,  como aquela da festa no parque de Saint Cloud?                                               

***