terça-feira, 2 de novembro de 2010

Primavera, além das flores e alergias

Almiro Zago

De cara lisa

Foi assim que se viu, na campanha política,  a maioria dos candidatos nas fotos estampadas em seus materiais de propaganda. Milagre operado pelo  Photoshop.

Sabem todos que esse recurso fotográfico permite esconder os sinais que o passar dos anos vai desenhando, esculpindo no rosto da gente. E, assim, a pessoa não se mostra   envelhecendo, nem envelhecida.

De minha parte, nada contra o uso do  Photoshop, menos quando se trata de candidatos a cargos eletivos. Como confiar em alguém que cuida de nos impingir uma imagem que já não lhe pertence?

Depois, se   candidatos – acima dos quarenta – aparecem sem rugas, sem manchas,  de pele lisa, isso não representaria   indireto desprezo pelo eleitor que ostenta as marcas do tempo? Meus sulcos, minhas rugas  e eu  nos sentidos rejeitados, sim.

Se os homens e as mulheres que pretendem me representar nos parlamentos, nos governos renegam a aparência de seu estado corpóreo, ao meu assemelhado,   a eles meu voto não mais darei. 

“Recuerdos” de Atacama:

I  : Das profundezas da  indiferença  ao pináculo da valorização da vida humana.    

II: Agora é cedo, mas em  dez, vinte e tantos anos, –  trinta e três histórias  à espera de  autor. Na sobrevida, o que terá acontecido a  cada um dos mineiros?

Concertos de primavera

Não, não me refiro ao Concerto Primavera de “As quatro estações”, de Vivaldi, mas aos concertos (ou seriam recitais?) dos sabiás nos arvoredos das ruas e do parque, perto de onde moro.

Agora, se o compositor veneziano, lá no Século XVIII, tivesse conhecido o canto desses pássaros, por certo  nos teria legado um concerto barroco com o título “Os sabiás”, ou coisa assim.

Pois a cantoria dos sabiás  me conforta na  insônia, quando   no silêncio das madrugadas  mais puros revelam-se os sons dessas divinas aves em seus diálogos canoros.

E, depois,  do amanhecer ao pôr-do-sol, em aparente revezamento,  os   sabiás     seguem levando ao ar sua música nostálgica, amenizando a atmosfera ruidosa da cidade.

Em caminhadas matinais,  tenho percebido que  um ou outro, em plena cantoria, se deixa  observar mais de perto, como aquele sabiá pousado num galho baixo de uma árvore, ao alcance de minha mão. Acho que  nessa hora mágica alguma força invisível protege o bichinho dos predadores e intrusos.

Reencontros

Sabem vocês da emoção de reencontrar amigos depois de muitos anos?

Eu bem a conheço, pois em setembro e outubro, particularmente na Feira do Livro de Caxias do Sul, vivenciei  várias vezes essa alegria.

E escutei amáveis manifestações do tipo: “Mas estás igual”, “Estás o mesmo até no jeito de falar.”

Nem precisaria dizer, mas ilusões não tenho,  sobretudo após a  perda do endereço da fonte da juventude. Então,  sexagenário que sou  nas proximidades do final da década e de bem com  a indesmentível aparência física correspondente, - se me dizem que estou como há 15 ou 25 anos, isto não poderia  significar  que eu já fosse desse jeito naquele tempo?

Bem, tenho achado melhor nada esclarecer...

***

P.S: “Mínimas Confissões” na 56ª Feira do Livro de Porto Alegre:
Livraria Maneco: banca  9 – Andradas.



quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Feira do Livro de Porto Alegre

(clique na imagem para ver maior)

Est Edições, os premiados, os apoiadores 
e Antônio Suliani (org. da edição)
convidam para o lançamento e sessão coletiva de autógrafos 
do livro

Construtores de História: 
Famílias Italianas do RS,

com os textos premiados no
I Concurso Frei Rovílio Costa: Famílias Italianas do Rio Grande do Sul
Dia 6 de novembro de 2010, sábado, às 14 horas
Memorial do RS. 1º andar -  Sessões de Autógrafos


Sua presença será incentivo e honra
aos premiados e aos ideais do Homenageado.

    *   *   * 

Como autor de uma das  histórias selecionadas pelo Concurso Rovílio Costa, gostaria de ter a alegria de sua presença.

Cordialmente,
Almiro Zago

sábado, 9 de outubro de 2010

O café da vida

Especial para o Semanário “Tempo Todo”, de Caxias do Sul

Almiro Zago

            Ainda não se escreveu, nem se disse tudo o que de bom representa o café em nossas vidas. Ou, pelo menos, na vida de quem o ama.
            De minha parte, venho apreciando cafezinho desde quando se escrevia com acento grave no “è”. Terá sido psicológico, mas  depois que a palavra  perdeu aquele sinalzinho, de início, sentiu-se menos sabor na xícara...                           
            Nunca esqueci o primeiro cafezinho. Foi numa tarde de sábado, com  vários colegas, todos adolescentes,   no Café Comercial,   no centro de Caxias do Sul.
            Afinal, ser homem  também era tomar cafezinho num reduto masculino de adultos.
            E, lá, num colorido painel na parede, conheci as primeiras teorizações sobre a bebida que os   árabes   ofereceram ao  mundo ocidental: “O bom café deve ser puro, como um anjo; doce, como o amor; e quente, como o inferno.”
            Fui levando a sério esses   mandamentos, mas só o primeiro, por essencial e verdadeiro, tem resistido. Todavia,  depois de incontáveis queimaduras na língua  convenci-me de que não precisava radicalizar tanto na temperatura. Mais tempo iria passar até perceber que  era apenas  metáfora o “doce  como o amor”. 
            Bem apreciar um café, sentir-lhe o aroma, a intensidade do sabor envolve um processo  de    paciente educação do paladar, ultimamente facilitado pela poética  adesão de livrarias. Aliás, em 1970, coisa rara, então, podia-se degustar café na Livraria Ramos.
            Como acontece com o vinho,  a doçura corresponde ao primeiro estágio a ser superado, pois, desculpem-me por dizê-lo, mais não faz do que mascarar o café ruim. E do bom, oculta os melhores predicados.
            Por isso, chega-se ao ápice do aprendizado, degustando o cafezinho   em seu estado de pureza e autenticidade. Embora não seja  o pico do Everest, poucos têm conseguido chegar lá, como eu cheguei, não sem algumas  recaídas, reconheço.
            Porém, o importante é que à volta do café fumegante  estejam pessoas curtindo momentos de amizade,  de satisfação, desses que  ajudam a fazer  a felicidade, que  às vezes aparecem por vias  tortas,  como me aconteceu, de uma feita,  longe daqui.
            Os cafezinhos sendo servidos, e, à minha vez,  notei que não viera o que pedira:
            - Mas  eu pedi café expresso...
            - Está bem - disse a mulher, recolhendo a xícara.
            Observando que se tratava de um cappuccino original, mudei de ideia.
            -  Senhora, pode deixar, eu tomo esse mesmo.
            -  Não, não. O sr. pediu café expresso, e vai tomar café expresso - escutei  de sua voz em   tom  autoritário.
             E vencidos uns dois minutos, sentindo-me um tanto masoquista, encontrei-me a cumprir a severa ordem, quero dizer, sorvendo um incomparável cafezinho italiano.
                                                    ****