sexta-feira, 8 de julho de 2011

Chateações sem fim

Almiro Zago

Ao assunto minorias e seus direitos, de uns tempos para cá, não tem faltado cobertura, exposição na mídia. Mas é pelas silenciosas e sem voz que vou falar. Pensando bem, seriam subminorias das minorias, e aquelas minorias inseridas no corpo das maiorias. Coisa complicada? Acho bom deixar para os sociólogos e outros estudiosos a tarefa de clarear o tema.

Resigno-me aqui, a expor pequenos dramas, que passariam por bobagens, não fosse sua permanência que leva chateação a não pouca gente. Por exemplo, pessoas com alguma deficiência visual, ainda que usem correção, e integrantes da faixa etária, por muitos chamada de “melhor idade”, embora seja desconhecida a opinião dos velhinhos a respeito.

Chateação I:

Para começo, meu caso. Desconheço medo de andar de elevador, o que não me poupa de um princípio de pânico ao procurar pelo painel de controle. Certo, ele termina por aparecer com seu belo design, mas... a cor dos botões e números confundem-se com a cor da placa metálica onde estão inseridos. E na pressa, pois há gente em volta, arrisco torcer o pescoço movimentando a cabeça para cima, para baixo, para os lados até ajustar a lente dos óculos ao ponto procurado. 

Ah, e se precisar manter a porta aberta, qual botão premer?

Já notaram como são as indicações nas teclas? Por mais que suba e desça de ascensor, não consigo me livrar do esforço para focar o objeto, até concluir que aquela tecla — com as curtíssimas, quase invisíveis, setas que se encontram — serve para evitar que a porta se feche. Bem, a essa altura ela já se fechou, e foi-se a gentileza para alguém que se aproximava.

Sim, conheço elevadores em que o dito painel exibe com clareza os botões dos andares, mas se necessito saber qual deles permite aquela operação de abrir ou cerrar a porta, haja acuidade visual para chegar às microscópicas setas indicativas!
 
Sabem a causa de tudo? A insensibilidade de designers e fabricantes que nos privam da praticidade em favor da estética, a deusa deles. Ainda virá o dia em que, pela Internet, será convocado colossal protesto, tipo paralisação geral de elevadores, contra tamanho descaso.

Chateação II:

E há outras coisas, em semelhante linha, que vêm exaurindo a paciência, na cidade onde vivo, embora o mesmo aconteça em outros lugares, também. Sair pelas ruas de carro à procura de um determinado endereço vira trabalho para Sherlock Holmes, acreditem. As plaquetas com os números dos prédios, além de pequenas, estão sempre escondidas nos pontos mais “criativos” das edificações, exatamente para não serem descobertas. Nem vou falar das placas com os nomes das ruas, pois quando existem já é um sucesso.

 Chateação III:

Por fim, meu nome pode ser encontrado na lista gris da sofredora minoria vítima da ditadura do gelo. Entre nós, todas as bebidas, tudo tem de ser gelado. E quando se tem vias respiratórias superiores e o chamado aparelho fonador de relações estremecidas com o frio dos líquidos, dos sorvetes, é preciso ficar na defensiva, pois, nessa área, a solidariedade é pouco conhecida.

Para dar pequena ideia, o primeiro aborrecimento, num restaurante e similares, começa com a necessidade de pedir enfática e claramente, por exemplo, “uma água mineral, sem gás, fora do gelo”. É um ganho quando o garçom, ou mesmo o dono do estabelecimento entende o pedido. E frequentemente não tem o que se pede. Depois, nas temporadas de calor, olham para a gente como se vissem um extraterrestre. “Imaginem só, o sujeito não toma água gelada...”

Em viagens, tudo se complica por causa dos hábitos locais. Certa feita, aconselharam-me a pedir, no idioma do país, que a bebida seja servida na temperatura ambiente. Tem dado certo, mas uma exceção houve. Num almoço, pedi vinho tinto, insistindo naquela ressalva.

E, rigorosamente, assim foi servido.

Porém, a temperatura ambiente era a do Passo Pordoi, nos Alpes italianos, a menos de três graus Celsius...

                                                                    * * *

sábado, 18 de junho de 2011

Gentileza no trânsito existe?

Almiro Zago
 
Parece que tem coisas que só acontecem comigo. A mais recente sucedeu-me num entardecer de maio, na autoestrada Osório a Porto Alegre. Pela faixa central, dirigia o automóvel na velocidade máxima permitida. 

De repente, deu-se algo incrível: qual bólido, aproximou-se um carro exatamente pela minha pista, com insistentes sinais de luz para que eu saísse do caminho... E, contudo, livres estavam as vias de ultrapassagem e de tráfego lento.

Por ironia, pouco antes, no rádio, saíra uma chamada motivacional, patrocinada por uma seguradora, com o mote Seja gentil no trânsito.  

Campanhas semelhantes sucedem-se na mídia, como ações de pretensão educativa para um trânsito mais civilizado nas cidades e estradas.

E os destinatários somos todos os motoristas, especialmente os desapegados das regras de trânsito, os imprudentes e impacientes, os “espertinhos”, grosseiros, os indiferentes para com o pedestre, os apressados e de outros, pouco edificantes, modos de proceder.

Mas acontece que a clientela que as campanhas pretendem conscientizar permanece a maior parte do tempo desembarcada; anda por aí, ocupada, como todos, nas atividades humanas da vida diária.

Por certo, quem senta à direção de um carro leva sua bagagem invisível contendo sua (de)formação pessoal, vivências, defeitos, virtudes et cetera.

Pois, então, a má conduta do motorista não estaria a denunciar a ausência de conteúdos importantes naquela bagagem invisível? Se assim for, urge completá-la por meio de um processo educacional para a vida como um todo, e não para uma parte, apenas.

Deveria ser este o objetivo a perseguir, pois, ao menos em tese, quem possuir espírito de comunidade, for correto, gentil e educado na sua vida a pé, igualmente o será quando embarcado dirigir.

Suspeito, entretanto, que para as gerações adultas o remédio mais rápido e eficaz seja sábia e sistemática fiscalização com incursões ao bolso. 

E, dourando a pílula, ficaria bem instituir a atenuante do estresse em favor do motorista bem-intencionado, pelo reconhecimento do direito de irritar-se e, por que não?, perder a paciência...  de vez em quando.

Ah, quanto ao episódio contado lá em cima, segui meu rumo. Dava para ser gentil?                         
                

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Colonizados contentes

Almiro Zago

Saber falar e escrever uma ou várias línguas, além da nacional,  é algo  muito bom, proveitoso, fascinante. E apenas conseguir comunicar-se,  seja em  inglês ou  alemão, tupi-guarani, italiano ou espanhol, francês, já rende  bela façanha para uma pessoa.

Numa ou noutra hipótese, o sujeito que reúne capacidade para tanto revela inteligência, talento e cultura. Agora, será que revelamos cultura, sabedoria, quando abusivamente inserimos em nossos textos palavras e/ou expressões de outro código de comunicação?

Franz Kafka teria dito que “A única coisa que temos de respeitar, porque ela nos une, é a língua”.

Vivesse no Brasil atual, como reagiria o respeitado ficcionista tcheco ao deparar-se com o Festival de Estrangeirismos que assola o país, se permitido é parafrasear Stanislaw Ponte Preta?

Se é inevitável a invasão de termos e expressões do Inglês, soa insolente o exagero a que chegamos no emprego de anglicismos na comunicação escrita e oral, muito adiante do simples resultado da larga influência da economia e da indústria cultural dos norte-americanos.

Mais recentemente, via Internet, os estrangeirismos anglo-saxões vieram de forma arrasante pousar no nosso falar, no nosso escrever. 

“Deixem em paz a nossa língua” escreveu Cláudio Moreno numa série de artigos no suplemento Cultura, de Zero Hora, a partir da aprovação de certo projeto de lei estadual que visava tornar obrigatória a tradução de estrangeirismos na comunicação escrita.

E o gramático e escritor nos tranquiliza, afiançando, por várias razões, que nossa língua não está em decadência. 

Está bem, a assertiva nos pode poupar preocupação, todavia não amaina o desconforto diante dos excessos gerados pela busca de tola importância, de pretenso status, modismo ou senso de imitação.

E, assim, vamos convivendo com a crescente presença de escritos em Português “enxertados” de vocábulos de língua inglesa, essa nova e estranha linguagem do risível culto à estrangeirice.


Se os termos importados conferem mais importância, dão força à mensagem, segundo sugere a comunicação publicitária, por que não se escreve  diretamente em Inglês o texto todo?

Falar Inglês é bacana, útil, necessário. 

Mas, “encher o Português de anglicismos por puro modismo ou por preguiça de traduzir ou de inventar, além de nada honroso, é uma forma de colonialismo, e do pior tipo, daquele em que o colonizado toma a iniciativa da subalternização.”

Essa dura crítica partiu do professor universitário paranaense Arthur Virmond e Suplicy de Lacerda, em seu blog. Isso, porém, foi há vários anos.

Periga ter razão.

Pelo andar da diligência, do tipo faroeste, em pouco chegaremos ao país dos colonizados contentes.