quinta-feira, 5 de julho de 2012

A ira dos deuses de Teotihuacán


Almiro Zago

Antes de ir ao México, se o assunto fosse civilizações antigas, pela minha mente passeavam nomes de povos: hititas, assírios, sumérios, babilônicos, egípcios, gregos, romanos. Por certo, esta fixação tem a ver com a forte influência da cultura europeia, base da nossa cultura. 

Claro, não ignorava terem vivido no México e América Central povos com notícias históricas remontantes há 1.200 anos a.C., como os olmecas, maias, toltecas, teotihuacanos. E os astecas, de Montezuma, de tempos mais próximos, tanto que foram eles que enfrentaram os invasores espanhóis e, por estes, levados à derrocada e ao desaparecimento como povo. Sua gente acabou por mesclar-se com outras origens autóctones e europeias.

Por ironia, os sítios arqueológicos pré-colombianos, contendo o espólio dos vencidos e de seus antecessores, representam o maior atrativo turístico mexicano. E foi num deles, Teotihuacán, 40 quilômetros da Capital, ao qual chegamos num sábado, sob o sol abrasador do meio-dia, que nos forçou a trocar o boné por um quase sombrero de palha.

Estávamos pisando em solo da ainda misteriosa Teotihuacán, a cidade sagrada do povo de igual nome, surgida por volta de 200 a.C. Floresceu, mas veio a desparecer com a dispersão de sua gente, que morava em seu entorno, lá pelos idos do ano 300 da nossa era. As causas da queda e o destino dos teotihuacanos, ninguém sabe explicar direito.

Outro ponto curioso é o de ter a cidade permanecido por séculos encoberta de lama e vegetação, a despeito da proximidade com Tenoctiklan, que cederia lugar à cidade do México. E isso a despeito do território ter sido adotado pelos astecas.

Nem os ambiciosos colonizadores espanhóis a conheceram, pois somente nos séculos XIX e XX grande parte de suas ruínas puderam ser reveladas e, a partir delas, arqueólogos lograram a sua reconstituição parcial.

Extasiados com tudo, confirmamos opiniões lidas ou ouvidas: o conjunto arquitetônico de Teotihuacán impressiona mais do que tudo pelas pirâmides. A maior, a do Sol, chega a 65 m de altura, tendo sua base dimensões iguais a de Quéops, no Egito. Escadarias de pedra, de degraus altos e estreitos, levam ao seu topo, que é alcançado por muitos visitantes, de onde admiram belíssimo panorama. Entre eles ninguém me viu, pois os meus joelhos vetaram a façanha. E o mesmo me aconteceu na Pirâmide da Lua, mais baixinha, de 42 m de altura, mas não menos bonita.


Pirâmide do Sol


Pirâmide da Lua   

Conformei-me com a planície. E sentindo a secura do ar pelas narinas, pensei que, além de amor pela astronomia, seriam românticos os teotihuacanos por construírem pirâmides em homenagem ao Sol e à Lua.

Porém, nada de romantismo inspira o nome do amplo caminho que percorríamos, ladeado por escadarias e pequenas construções, entre as duas pirâmides: Avenida dos Mortos. Certamente, homenagem aos que pereciam nos sacrifícios humanos, nos ritos religiosos. 

Para compensar, numa das laterais, vimos arte e poesia no conjunto do que restou do Palácio de Quetzalpapálotl, onde o Templo das Conchas com Plumas ainda conserva uma amostra de belos murais coloridos, com aves que lembram papagaios jorrando água dos bicos. E pertinho dali, no Palácio do Jaguar, pudemos ver fragmento do Mural da Onça Pintada, que, segundo nossa falante guia, representa uma onça com plumas, tocando instrumentos feitos de penas e conchas do mar.

Pois então, bem antes dos europeus pisarem no que seria a América, aqui havia vida inteligente, um povo conhecedor de astronomia, inclusive com calendário próprio e matemática, dominando as artes da pintura, escultura e arquitetura. Quer dizer, havia uma civilização contemporânea à romana, na época da crucificação de Jesus Cristo.

Nem pensar em ver tudo nesse sítio arqueológico em algumas horas. Mesmo assim, conseguimos nos despedir conhecendo o mais afastado dos monumentos: o Templo de Quetzalcoatl, que, na parede frontal, exibe máscaras em pedra da “serpente emplumada”, que é o significado do seu nome.

Vejam que interessante coincidência: a serpente figura na Bíblia do Cristianismo e do Judaísmo e, igualmente, nas manifestações religiosas dos teotihuacanos. Qual o significado disso?

Bem, para chegar àquele lugar, a certa altura, depois de subir e descer íngremes escadarias de altos degraus de uma espécie de plataforma, chegamos a um campo seco que leva ao monumento, exatamente no lado oposto.

Pois fizemos alguns passos, e, repentinamente, um forte vento carregado de poeira nos deteve. Parecia nos sufocar.

Cinco, dez segundos, nem sei bem, teria durado o fenômeno. Porém ao abrir os olhos pude observar o funil de um minitornado se afastando.

Seria aquilo um sinal dos deuses de Teotihuacán, contrariados com nossa presença?  Ou algo só comigo?

Pelo visto, compadeceram-se, pois seguimos em paz.
                                          

Máscaras em pedra da “serpente emplumada”


Maio/2012

segunda-feira, 11 de junho de 2012

A joia das montanhas


Almiro Zago

Entardecia na mexicana Sierra Madre del Sur com seus picos enevoados beijando as alturas de 1.800 m, quando o teleférico preguiçosamente elevava-se rumo ao hotel Monte Taxco. Da pequena cabina deixava-se ver a periferia de uma cidade encravada na encosta da montanha até surgirem os coloridos telhados do que seria seu centro histórico.
  
Era Taxco de Alarcón. E vista daquele ponto privilegiado, se um pedaço de mar estivesse aos seus pés, bem lembraria a italiana Positano. Já na manhã seguinte, andando pelas suas ruelas típicas de belo casario, com traços da arquitetura colonial espanhola, até a grande e bonita igreja barroca de Santa Prisca, vinha-me a sensação de estar passeando numa daquelas cidadezinhas das ilhas gregas — Mikonos, Rhodes.

E, todavia, encontrava-me num lugar único, na “Ciudad dela Plata” nascida com a mineração da prata, na terceira dezena do século dezesseis. Ainda hoje sua gente tem nesse metal nobre a base da atividade econômica na manufatura de joias: anéis, colares, braceletes, brincos, pulseiras, além de objetos de adorno e utensílios de luxo. E são vendidos num sem-número de joalherias, particularmente em torno da Plaza Borda.

Nesses lugares, era até bonito de ver o nem sempre contido entusiasmo das mulheres observando, escolhendo e comprando, ou a receber presente.

Taxco é daquelas cidades onde o andar pra cá e pra lá, ou pra cima e pra baixo, já é atração, embora não faltem lugares para ir como o museu da Casa Humboldt; ou o museu Guilherme Spratling, onde, além de obras de arte de toda parte, podem ser vistas peças originárias do período pré-colombiano; a Casa Borda, de 1759; a Casa Figueiroa. E, claro, os bares e restaurantes.


Mas acontece que, estando lá, cada um introjeta seus motivos de encanto: a arquitetura e as ruelas conferindo uma atmosfera peculiar, as joias de prata, a paisagem de montanha, a fachada churrigueresca* da igreja de Santa Prisca, mandada construir, em 1751, por riquíssimo minerador, legando um dos mais belos templos do México.

E, então, Taxco com seus prateados fios vai tecendo sua imagem na lembrança de quem a conheceu.
                                                                                                 ****
* Barroco espanhol do primeiro terço do século XVIII, uma variante do estilo barroco que aplica maior ornamentação.  





quarta-feira, 2 de maio de 2012

O trem cor-de-rosa


Almiro Zago

E temos ainda de suportar a estupidez dos donos desses bichos  pretendendo neles implantar asas de anjo.        


Que tempos são esses que vivemos? 

Ainda que a pergunta apareça carente de toque original, sua atualidade desconcerta.

Talvez sejam os tempos do sucesso da ciência e da tecnologia e, paradoxalmente, da decadência dos valores humanos com a gradativa perda do status de civilizado por expressivos contingentes populacionais em todo o planeta.  

Como não enxergar que o ser humano, pela deplorável conduta de muitos, muito se desqualifica e diminui? E ao desvestir a roupagem da civilização retrocede rumo ao estágio primitivo, a despeito do vasto aparato tecnológico de que dispõe.

E, fincando pé em nossa aldeia, se alguém repetir que formamos uma sociedade tipicamente transgressora periga nem encontrar quem lhe possa oferecer consistente contraponto.

Transgride-se do Oiapoque ao Chuí em todos os níveis. Mata-se por nada, por litígios ligados ao tráfico de drogas, por interesses econômicos, fazendo operar a pena de morte privada.

Rouba-se, furta-se, assalta-se, agride-se, desrespeita-se quase tudo — do sinal de trânsito às comezinhas regras de precedência, de respeito, outrora ditadas pelo costume, mesmo que algumas já estejam inscritas em lei, como a prioridade para deficientes e idosos.

Pois bem. Como se isso tudo fosse pouco, ultimamente somos levados a preocupações com cachorros, sim, certas raças de cães, que ferem, estraçalham e até matam pessoas. E temos ainda de suportar a estupidez dos donos desses bichos pretendendo neles implantar asas de anjo. 

E agora vem outra: está em curso um movimento de usuárias do Trensurb — Porto Alegre ao Vale dos Sinos — reivindicando um vagão exclusivamente para elas. Tudo porque há malandros aproveitando-se do ambiente lotado de passageiros para molestar, perturbar mulheres, desrespeitando sua intimidade. Coisa que já acontece nos trens do Rio e Janeiro.

Ninguém estranhe se, amanhã ou depois, não serão reivindicados ônibus exclusivamente femininos. Ou se a degradação do comportamento, por ora masculino, não nos levar ao fim do misto compartilhar dos meios de transporte coletivo.  Aliás, semelhante ao que já existiu no ensino privado quando havia escolas só femininas e só masculinas.

Claro, o processo educativo tão cedo não vira esse quadro. Pois, então, tentemos      salvar o encanto do sistema misto, quem sabe, adotando um critério de separação, tipo: educados e mal educados.

Certo, haverá só um probleminha a superar: a classificação...

***

 “Escrever é um ócio muito trabalhoso.”
 (Goethe)

                      
"Quem escreve, escreve para não morrer. 
Quem lê, lê para imaginar que vive.”
(Delmino Gritti)