quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A migalha mágica *

Almiro Zago


Teriam os cientistas e os dirigentes do CERN captado as mensagens da ave e da migalha de pão que detiveram o grande Colisor de Hádrons?
 
Uma insignificante migalha de pão fez parar a  maior e mais complexa máquina até hoje construída no mundo. Parece ficção, mas aconteceu no último dia seis. Caída de um passarinho, foi parar sobre uma parte exposta do  grande Colisor de Hádrons, provocando superaquecimento. Por causa disso, todo o aparato acabou sendo desligado, é só voltou a funcionar quatorze dias depois.

Devo lembrar que se trata do bilionário projeto do CERN - Conselho Europeu para a Pesquisa Nuclear (ou LHC)   que, até o ano passado, já havia  sepultado por volta de sete bilhões de Euros num enorme túnel a cem metros de profundidade, num  lugar entre a Suíça e  a França. E  envolvendo perto de dois mil físicos de trinta e cinco países e dois laboratórios autônomos de pesquisa. Algo semelhante, porém menos adiantado, está em andamento nos Estados Unidos.

Tudo, claro, com elevados fins científicos: procurar uma explicação da origem da massa das partículas elementares e encontrar outras dimensões do espaço, simulando    a grande explosão que resultou na criação do universo.

Mas eu fiquei encantado com esse fascinante episódio do passarinho e da migalha, algo que vai muito além do pitoresco e curioso, ou do simples fruto do acaso.

Hoje, insistente ideia veio perguntar se não seria um sinal, uma pacífica advertência aos cientistas e aos seus dirigentes?

Algo como o escancarar a fome e a miséria diante da opulência do projeto; um  martelo nas consciências daqueles que usam fabulosos recursos em nome da curiosidade, da busca de grandeza, indiferentes aos  milhões de seres humanos a quem falta o pão, a roupa, a saúde.

Quanto simbolismo carrega uma única migalha, um poético convite à reflexão.

E um belo recado aos europeus. Tivessem, eles, investido semelhante fortuna em atividades produtivas nos países pobres da África, por exemplo, quem sabe bem menores fossem  as  levas de imigrantes africanos, que tanto os incomodam...

E o pássaro, em vou rasante,  de seu bico liberando a migalha de pão   bem encima de ponto sensível do mais espetacular produto da ciência. E fazê-lo parar. 

Em primeira leitura, vejo um certeiro golpe na soberba e egoísmo dos homens da ciência e seus ricos patrões. Depois, estaria ali um silencioso apelo do mundo animal, um pedido de socorro diante da progressiva eliminação de seus ambientes naturais. Justo a quem tanto deseja conhecer como tudo começou, mas que nada quer saber da humana sina destruidora da vida no Planeta. Quiçá, por já saber o final da história.

Teriam os cientistas e os dirigentes do CERN captado as mensagens da ave e da migalha de pão que detiveram o grande Colisor de Hádrons?
 
Nem ilusões tenho. Mas do que vale para o homem conhecer como era o Universo um bilionésimo de segundo após o Big Bang, - o momento em que as sementes da matéria começaram a existir - se a vida em nosso Planeta, pela ação do mesmo homem, parece caminhar para a extinção?

Só por implicância, daqui em diante ficarei torcendo para que a grande máquina, ao invés de um solitário passarinho, seja logo visitada por uma revoada de pombos malcriados...

                                               *  *   *

* = Ver "A indiferença de Minerva", crônica publicada neste blog, a 20/04/2008  

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Quando bacana é o chefe

Da série Casos de Viagens:

Almiro Zago


Primeiro, conheça o seu país, depois os outros. Cansei de ouvir isso. Mas, com bons ouvidos, também escutei a pragmática dica de uma amiga muito viajada:  "enquanto a idade e a saúde ajudarem, viajem pra longe; o perto, fique pra depois..."


Ultimamente, sentindo aquele "depois..." na espreita, calculei que a Irene e eu temos ficado na média dos dois conselhos, porém com parcimoniosa frequência.


Cedo, levamos a sério  o primeiro deles. Ainda em clima de lua de mel, saciamos a curiosidade de conhecer boa parte do Brasil. Não fomos no meu Dkw  bordô,  nem de avião, nem de ônibus de turismo. Viajamos de ônibus de linha com partidas e chegadas em estações rodoviárias, comprando passagens com alguma antecedência ou na hora. E reserva de hotel, pra quê?


As coisas iam bem, tudo cheirando a  descoberta: as paisagens ao longo das estradas, gente diferente, outros costumes. Assim, andamos por Curitiba e o norte do Paraná, pelo  oeste paulista e  São Paulo, Belo Horizonte, a barroca Ouro Preto e  adjacências.


Mas em Brasília... Como era  linda a noite de julho! Ao taxista, pedi para começar pelos hotéis mais em conta. E fomos aos mais caros, também. Nuns e noutros, apenas a antipática frase:  "não tem vaga". Culpa de  um congresso de médicos.


Nem mesmo o famoso e luxuoso  Hotel Nacional nos deu chance.


Salvou-nos Taguatinga, nas imediações. Num hotel com atraente luminoso em néon,  ficamos num quarto razoável. Mas o banheiro... Entrar? Só com  esforço de contorcionista:  a porta trancava em alguma coisa. Box ou banheira? Não usavam. E o chuveiro, muito original: bem em cima e  na direção do vaso sanitário...


Já de manhã, tomamos a grande decisão, pois o Rio nos esperava: encontrar  um bom lugar em Brasília ou ir embora.


Fica chato admitir, mas  coisa pior já me havia acontecido no Rio de Janeiro.


Hospedados num confortável e econômico hotel,  estivemos numa excursão para torcer pela  representante gaúcha, uma caxiense, no Concurso Miss Brasil 1969. Nem adiantou, a  Vera Fischer venceu.  


Bom, a serviço, voltei ao Rio no mês seguinte. Faceiro, sem  reserva de hospedagem,  fui ao mesmo lugar por nada. Já cansado das negativas dos hotéis da ainda charmosa Cinelândia, conformei-me em parar numa espelunca, pagando adiantado. No que seria o único quarto disponível, notei que era de vidro transparente a parte superior de uma  parede, deixando-me na vitrina   para quem descesse  a escada do corredor.


Larguei a bagagem e saí. Sem encontrar táxis, às onze da noite, ruas desertas,   andei umas dez quadras  até a Cinelândia. Exausto,  revisitei os mesmos hotéis. E, no Senador, passados três segundos da negativa, da voz do gerente saiu: "fulano, dá pra ele a reserva técnica..."


Todavia, naquela manhã em Brasília,  um atencioso taxista  foi  repetindo o infrutífero  roteiro da noite anterior. Eu, colecionando frustrantes respostas.


E o Hotel Nacional? Sim,  o mais chique  e muito mais salgado, ou  pior,   longe das minhas possibilidades.


Cheguei no ambiente requintado, os homens, "comme il faut", de terno e gravata, e este provinciano em manga de camisa,  calças  jeans   e  cara de constrangido.


Nem é de acreditar: o "Sinto muito, não temos lugar", do recepcionista mereceu imediato desmentido do seu chefe:


- Vê  o número tal...pra ele.


Contente e esquecido do preço,   fui avisando que iria buscar minha mulher. Mas o dito chefe, coçando a cabeça,  examinando  minha indumentária, bem do jeito de  "não vá dizer que  não te avisei" -  advertiu:


- A diária é  cento e dez Cruzeiros por pessoa, viu?!...


Vi. E no bolso, como senti!


Está certo, Brasília e sua arquitetura modernista valiam.


Já o Governo de então...             


                                             ***


P.S: Mínimas Confissões" na Feira do Livro de Porto Alegre:


Banca da Livraria do Maneco - bem na parte central da Praça da Alfândega;


Banca da Livraria Nova Roma, na Rua 7 de Setembro.                                            

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Os livros e a praça

 Para o semanário "Tempo Todo",  de Caxias do Sul

Almiro Zago

Os livros são pequenos pedaços do incomensurável. 
(Stephan Zweig)

A praça, talvez  nem seja a mesma. Dante Alighieri,  seu antigo patrono, retomou seu posto, sem mágoas de Ruy Barbosa, imagino, pois num certo momento histórico  tivera seu nome  usado com fins pseudopatrióticos para despejar o autor da Divina Comédia. 

Depois, a radical e bonita remodelação paisagística,  feita há uns poucos anos, também  favorece  a ideia de que outra seja a praça. Olhando bem, apenas alguma coisa do seu chafariz e  a Estátua da Liberdade, a oliveira vizinha de uma araucária e o  monumento ao Duque de Caxias  me dizem algo  do   belo espaço público da minha adolescência e juventude. 

Mas,  nos afetos do meu imaginário,  nada mudou do ponto de encontro da cidade, o lugar de reunir-me com amigos antes do cinema, de ver as garotas, de passear com a namorada. 

E foi ali,  num dos primeiros meses de 1961,  que eu conheci uma modesta,  porém intrépida  Feira do Livro  com descontos e tudo.

Embora não tenha sido fácil  reunir  pequena soma em Cruzeiros, comprei três livros - de menor preço -, escolhidos dentre os volumosos para ter mais leitura e viver aquilo que  Jorge Luis Borges referia como uma forma de felicidade.

E bem me lembro  do mais alentado, traduzido do espanhol,  que trazia o curioso título: "Epitalâmio do Negro Trinidad".

Custei a entender a história  porque havia tomado  epitalâmio por  epitáfio. Claro, ficou  mais fácil entender a novela de Ramón J. Sender ao descobrir o significado: canto ou poema nupcial. Confesso, entretanto, ter ido ao  Google resgatar o nome do autor. 

Ao curso do tempo,  outras Feiras do Livro vieram  marcar ponto na praça  até esta vigésima quinta consecutiva. E, agora,  é lá que se apanham os bilhetes econômicos da  melhor nave para viajar longe: o livro, como teria dito Emily Dickinson.

Mesmo sem morar em Caxias, venho participando de quase todas as Feiras,  como leitor. 

Levando a sério o que disse Italo Calvino - "escrever, é sempre esconder algo de modo que mais tarde seja descoberto" -,  desde a edição de 2007, tenho  a  alegria de incluir-me entre os autores.

E isso, passados 46  anos  do "canto nupcial" do Negro Trinidad.

Ah, esclareço: já não confundo  epitalâmio com epitáfio... 

Meu livro "Mínimas Confissões" estará na Feira do Livro de  Caxias do Sul, de 2 a 18 de outubro, na Praça Dante Alighieri.