quarta-feira, 9 de março de 2011

À tarde, no cais

Almiro Zago


Foi numa linda e fria tarde de outono que me aconteceu o caso curioso que vou contar. 

Na memória, posso ainda me ver no barco que suavemente deslizava para o atracadouro da cidade, da qual nem sabia o nome. Recordo-me do casario antigo de madeira, ao fundo, como se fosse a norueguesa Bergen. E, todavia, os poucos passageiros a bordo falavam espanhol.

No pequeno cais, grupinhos de pessoas aguardavam os viajantes. Justo na minha direção, no caminho de quem chegava, sentadas num banco, duas mulheres animadamente conversavam. E de pé, pertinho delas, quase de perfil, de cabelos negros que mal lhe cobriam o pescoço, sobressaía certa mulher, de meia-idade, diria. Pateticamente, destoava pelo seu modo de vestir, bem fora de época, embora preservasse porte elegante. Acreditaria se tivesse saído de um filme dos anos 30, do século passado.

E, para meu espanto, me observava, acompanhando-me com o olhar, sem sequer um esboço de sorriso nos lábios, enquanto eu cuidava de desembarcar.  Reconheço, a esquisita situação deixou-me desconcertado.
    
Ela estava à minha espera, claro, mas por quê?

Finalmente, pisei em terra firme; e a estranha figura voltou-me as costas, afastando-se devagarzinho. E no calculado lento caminhar, de sua mão direita deixou cair um lencinho azul. Sabe, aquele gesto fingidamente casual de certas personagens de antigos romances, para dar chance a que o homem o apanhe, como pretexto para a abordagem ao entregá-lo a sua dona.

— Olhe... é para o senhor, o lencinho, disse-me, em espanhol, uma daquelas mulheres  conversadeiras.

Embora quisesse ignorar aquilo tudo, reuni firmeza e, no mesmo idioma, me saiu:    
  
— Soy un hombre casado, señora, tengo hijos e una linda mujer.

— Ah... que romântico.    
            
E ao erguer o olhar, seguindo em frente, quedei-me atônito diante do cais vazio.

Pois, aí, sobreveio a nebulosa passagem entre o sonho e a realidade, onde me encontrei na vã tentativa de decifrar o enigma.

Pelo menos, ao final, uma certeza ficou: fiz bonito lá em casa.  

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Que será da música?

 Almiro Zago

Já fora assim na noite anterior. Porém, o sono mais forte, o barulhinho do split e a força do pensamento positivo — vou adormecer, vou adormecer — abafaram o tunc-tunc, e eu consegui repousar. Mas no sábado para domingo nada disso funcionou.

Ainda bem que minha paciência não se foi, mesmo com aquele tunc-tunc martelando sem parar. Mas dormir, como?  De minha parte, ainda não alcancei aquele estágio de dispensar Morfeu. Meus neurônios e seus associados exigem-me pelo menos seis horas diárias de sono.

Pois passada a meia-noite, vestindo calma e cordialidade sobre pijama verde, fui buscar a solução junto à fonte do persistente bate-estaca: meus vizinhos temporários de praia. Antes que pudessem notar minha aproximação, pude ver um alegre grupo de moças e rapazes, conversando animadamente em volta de uma mesa na varanda da casa, sem algazarras, mas, que barbaridade!, com aquele fundo, ou melhor,  alto musical. Escrevo musical só para me fazer entender, porque aquele ruído talvez pudesse ser música no tempo do homem das cavernas.

Ao ver-me a certa distância e perceber meu amistoso sinal para baixar o volume, a jovem anfitriã captou meu drama. Para meu bem-estar emocional, o tunc-tunc foi sumindo, sumindo. E ao voltar para a cama, o silêncio já se fazia canção de ninar.

Pois aí veio-me a contraditória sensação de ficar chateado porque o exercício do meu direito estragara a festa da turma. Depois, assaltou-me um sentimento de tristeza e pena pela pobreza de gosto, de sensibilidade e de cultura musical daquele grupo, gente de boa escolaridade. Longe de pensar em Bach, Mozart, Vivaldi, já servia se estivessem escutando a trilha sonora da novela da noite, da Globo.

Meu receio é que esses moços, como tantos outros, jamais vivam a emoção da verdadeira música, alienados pelo som ruidoso, primitivo, monótono, que parece ser a marca da vida contemporânea.

Menos mal se baixam o volume quando a gente reclama.

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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A flor que amamos

Almiro Zago

Foi no verão passado, e Dilma Rousseff nem candidata oficial era, quando ouvi um desconsolado amigo lamentar-se: seria inaceitável uma guerrilheira na presidência da República.

Sim, deixei o monólogo fluir, pois a ocasião não favorecia o diálogo, especialmente ao perceber que o sujeito fora simpatizante dos governos militares, coisa que eu desconhecia, ou não lembrava.

Fosse hoje, quando o “inaceitável” faz parte do cotidiano brasileiro, poderia dizer, se isso o consolasse, que, ao tempo em que Dilma fora guerrilheira, inaceitável, para ela e para muitos brasileiros, fora a ditadura. 

Viu-se, como sabemos, a força do poder a sufocar Dilma e a todos que de forma semelhante agiram. Ou apenas pensaram. E para a moça guerrilheira sobrou a repressão, a tortura e a dureza da lei vigente que a levou ao cárcere.

Nem precisaria dizer, mas a ela, como a todos os que se opunham ao sistema, tocou ajeitar-se à indigesta realidade, quem sabe compreendendo que a luta armada não seria solução, embora, num certo momento, pudesse ter parecido única saída.  

Depois, com a “lenta e gradual distensão” veio a ação política, o embate de ideias em busca das liberdades democráticas. O mesmo rumo foi sendo trilhado também por muitos dos acompanhantes do regime militar. E pelas novas gerações.

Virtuosa ou pecadora, à nossa semelhança, floresceu a democracia.

Pois, em 2010, a jovem derrotada em 1970 chegou a conhecer a vitória. Consagradora, aliás. Alcançou o posto mais alto da República sem que, e isso eu imagino, tivesse sonhado tão alto.

E agora, ao meu amigo, se me desse a satisfação de ler estas reflexões, pondero que lhe será leve conformar-se com a ex-guerrilheira no cargo de Presidente do Brasil. Acima de tudo, porque isso aconteceu pelo caminho pacífico da eleição livre, a reta via para transformações; a mesma que poderá colocar um adversário em seu lugar ao final do mandato.

E isso assim é porque a sociedade brasileira associou-se à democracia. 

Cuidemos, pois, dessa frágil e rara flor.

Se tivermos juízo, claro.  

12.01.2011