sábado, 9 de outubro de 2010

O café da vida

Especial para o Semanário “Tempo Todo”, de Caxias do Sul

Almiro Zago

            Ainda não se escreveu, nem se disse tudo o que de bom representa o café em nossas vidas. Ou, pelo menos, na vida de quem o ama.
            De minha parte, venho apreciando cafezinho desde quando se escrevia com acento grave no “è”. Terá sido psicológico, mas  depois que a palavra  perdeu aquele sinalzinho, de início, sentiu-se menos sabor na xícara...                           
            Nunca esqueci o primeiro cafezinho. Foi numa tarde de sábado, com  vários colegas, todos adolescentes,   no Café Comercial,   no centro de Caxias do Sul.
            Afinal, ser homem  também era tomar cafezinho num reduto masculino de adultos.
            E, lá, num colorido painel na parede, conheci as primeiras teorizações sobre a bebida que os   árabes   ofereceram ao  mundo ocidental: “O bom café deve ser puro, como um anjo; doce, como o amor; e quente, como o inferno.”
            Fui levando a sério esses   mandamentos, mas só o primeiro, por essencial e verdadeiro, tem resistido. Todavia,  depois de incontáveis queimaduras na língua  convenci-me de que não precisava radicalizar tanto na temperatura. Mais tempo iria passar até perceber que  era apenas  metáfora o “doce  como o amor”. 
            Bem apreciar um café, sentir-lhe o aroma, a intensidade do sabor envolve um processo  de    paciente educação do paladar, ultimamente facilitado pela poética  adesão de livrarias. Aliás, em 1970, coisa rara, então, podia-se degustar café na Livraria Ramos.
            Como acontece com o vinho,  a doçura corresponde ao primeiro estágio a ser superado, pois, desculpem-me por dizê-lo, mais não faz do que mascarar o café ruim. E do bom, oculta os melhores predicados.
            Por isso, chega-se ao ápice do aprendizado, degustando o cafezinho   em seu estado de pureza e autenticidade. Embora não seja  o pico do Everest, poucos têm conseguido chegar lá, como eu cheguei, não sem algumas  recaídas, reconheço.
            Porém, o importante é que à volta do café fumegante  estejam pessoas curtindo momentos de amizade,  de satisfação, desses que  ajudam a fazer  a felicidade, que  às vezes aparecem por vias  tortas,  como me aconteceu, de uma feita,  longe daqui.
            Os cafezinhos sendo servidos, e, à minha vez,  notei que não viera o que pedira:
            - Mas  eu pedi café expresso...
            - Está bem - disse a mulher, recolhendo a xícara.
            Observando que se tratava de um cappuccino original, mudei de ideia.
            -  Senhora, pode deixar, eu tomo esse mesmo.
            -  Não, não. O sr. pediu café expresso, e vai tomar café expresso - escutei  de sua voz em   tom  autoritário.
             E vencidos uns dois minutos, sentindo-me um tanto masoquista, encontrei-me a cumprir a severa ordem, quero dizer, sorvendo um incomparável cafezinho italiano.
                                                    ****

domingo, 5 de setembro de 2010

E a luz virá da cadeia

Almiro Zago

Dia desses, sentado à mesa de janela num restaurante, estava eu a ganhar calorias, enquanto diversas pessoas tratavam de perder a suas numa academia, no outro lado da rua.

Perto de mim, num grupinho, o assunto do almoço era a calamitosa situação dos presídios, a promiscuidade e a ociosidade dos presos. Tive  ímpetos, contidos a tempo, mas libertos agora, de a eles apontar  original alternativa para amenizar o problema: levar academias de ginástica aos reclusos, dando-lhes a chance de malhar.

Intimamente, divertia-me com o achado, e ao notar um sujeito que pedalava num aparelho, bolei uma academia equipada só com bicicletas estacionárias, providas de  dínamo, mas sem  farol.

Se alguém esqueceu, ou não sabe,  dínamo, eu pesquisei,  é um pequeno aparelho que gera corrente contínua convertendo energia mecânica em elétrica, através de indução eletromagnética.

Algum tempo depois, em madrugada de insônia,  surpreendi-me a imaginar  os encarcerados pedalando para manter a forma física e produzindo  energia elétrica.

Não seria uma coisa  bacana? Veríamos aí, ao mesmo tempo, a realização do ideal romano - “mens sana in corpore sano”, mente sã em corpo sadio - e toda a massa carcerária com possibilidade de ocupação útil, remunerada e, ainda, com direito à remição da pena pelo trabalho.

Está bem, podem dizer que seja bobagem, mas confesso minha irresistível simpatia   pela ideia.

Afinal, pouco custa pensar em  novo jeito de lidar com  tema tão explosivo.  Depois, uma reflexão isenta nos revelaria a sociedade refletida nas imagens das casas prisionais   pela  incúria, leviandade,  indiferença  para com o lado mais dramático da imperfeição humana,  inseparável  da convivência em comunidade. E tanto maior quanto mais doente o tecido social.

Convenhamos, nesse quadro gris, um projeto como este, por quixotesco que pareça,  mais interessante será  do que a inércia e a ausente criatividade. Depois,  para a sua adoção, mais não reclamaria do que a  vontade política dos agentes estatais, mesmo  diante da sempre alegada carestia de recursos.

Pois não andam a falar de parcerias? Estão aí as  empresas distribuidoras de energia elétrica, que bem poderiam construir instalações junto a presídios e penitenciárias e equipá-las para funcionamento das, digamos, academias, verdadeiras  mini usinas de   propulsão humana.

Claro, haveria   problemas técnicos a resolver, o que, entretanto, não demandaria maior cota de massa cinzenta  a dois ou três engenheiros das áreas  envolvidas.

Vejam só: num presídio com quatro centenas de homens, cada um exercitando-se 30 minutos por dia, ter-se-ia 200 horas diárias de produção de energia elétrica. Se o dínamo de uma bicicleta comum gera luz suficiente para iluminar o caminho noturno de um ciclista, pode-se bem ter uma noção do que representariam 400 faróis.

De minha parte,  devidamente citada a fonte, daria de graça a ideia, o que não significa renúncia a eventuais recompensas em moeda corrente nacional.

Mas quanto ao exercício físico dos reclusos, anotem bem a ressalva: pedalar fortalece a  musculatura das pernas. Aí, se eles fugirem, quem os alcançará?
                                                   ***

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Se meu DKV falasse*

 Almiro Zago


Andaram inventando um automóvel que pode ser convertido em avião, tipo de novidade que já não me comove. Diz meu lado cético que teremos mais uma geringonça a poluir no solo e nos ares.

Nunca terei um,  mesmo porque  jamais se igualaria em fascínio ao meu primeiro carro, o simpático  quatro portas bordô, teto creme, motor a dois tempos, alavanca de câmbio no volante.  Novo, meu DKW-Vemag fora há  anos, mas   nunca mais velho do que eu. Porém, era o veículo  ao alcance do meu bolso.  E oferecia-me o essencial: o valor utilidade. Claro, aquela aparência que transfere status  o seguia a muitos centímetros  do para-choque  traseiro. 

Ah... Foram no  DKW  aquelas primeiras viagens de carro às praias de   Torres e   Paraíso, e à Praia Azul com direito ao atoleiro de areia para entrar e sair da garagem.   E também a Gramado e Porto Alegre, estacionando na  Andradas, diante do que fora o Grande Hotel.

Auto valente foi o meu DKW.  Em gélidas noites caxienses, aquecia-se à luz das estrelas e amanhecia pedindo água quente para derreter o gelo sobre seu  para-brisa.   Acreditem, na beira da estrada  nunca me deixou; quando muito, negava partida que uns empurrões   resolviam.


Uma noite na memória


Entretanto, uma certa viagem iria marcar a história de bravura e resistência do meu, nem tão flamante, DKW-Vemag.
A noite era de fevereiro. Pelas  nove e meia,  um  motivo de grande urgência   reclamava a imediata ida do casal à Santa Maria, em percurso de uns 430 quilômetros. Mas à noite, ainda não guiara em estradas,  salvo nas partidas, cedinho,   antes do amanhecer. (Lembram de “A hora antes do amanhecer”, de W. S. Maughan?)

Pois, ainda pelas pelas ruas de Caxias, um insolente tac-tac apareceu no compartimento do motor. Num posto de gasolina, nada descobriu-se sobre a sua origem. Como no mais o veículo  estivesse em ordem, fomos embora pela RS-122,  novíssima e bem sinalizada.

Descida a serra, seguíamos  tranquilos pelo vale até o susto que nos pregou um degrau no piso, bem na entrada da ponte sobre o Rio Caí. Vencido o solavanco - feio de estremecer, o DKW, seus viajantes e o  tac-tac seguiram ilesos.  Mais não fora do que reles aviso de desafios sequer imaginados.
O primeiro deles deu sinal já na passagem por São Leopoldo, na forma de ligeira alteração  da temperatura do motor, mas que chegou às alturas na periferia da  Capital. Só não esquentou o barulhinho.

Vazamento na  mangueira do radiador – diagnosticou um frentista   na breve parada para reabastecer o veículo. Isso demandaria  frequente  reposição de água.
Com as luzes de Porto Alegre à esquerda e a trilha sonora do  tac-tac de fundo,  cruzamos a ponte sobre o Guaíba, rumo à BR-290. 

A madrugada iria surpreender-nos em estrada solitária, até do luar esquecida. O olhar o céu estrelado, a prudência proibiu.
  E como  jovem ao volante não sente sono... íamos em frente ligeirinho, mas nem tanto. Estável o  aquecimento do motor e constante o tac-tac,   tudo parecia sob controle.


A gillette mágica


Porque o posto programado estava às escuras,  cortei dos planos um “pit stop". Talvez faltasse pouco mais de meia hora para o clarear de um dia de verão, quando adentramos ao caminho de São Sepé.  E a  alguns quilômetros, abriu-se aos faróis  a via  alargada  à espera de asfalto. Todavia, implicante, o indicador de temperatura do motor passou a revelar movimento. O medo não me aconselhou parar. Entretanto, mudou de ideia,  passados alguns minutos, ao chegar o ponteiro à marca máxima. 

Desci e fui  direto levantar o capô do motor, e lá de dentro espalhou-se   quente uma nuvem de vapor, bem do jeito que vira  em filmes americanos.  Mas com a sutil diferença: eu não tinha dublê.
Iríamos ficar a pé?

O jeito era esperar. Esfriadas - minha cabeça e a máquina, outra vez  água para o arrefecimento. Mas água só num riacho  na baixada, para onde deixei rolar o  DKW em ponto morto;  morto também parecia  o tac-tac.

 De uma  câmara-de-ar  sobressalente, com uma incisão de gillette, única arma a bordo, improvisei  um balde para recolher água que levei ao  depósito do radiador. Dada partida, o motor, pelo tac-tac imitado, reagiu bem.  Foi assim que o sol nascente nos viu, em estrada molhada, alcançar São Sepé. E lá,  em precária assistência, mandei enfaixar a mangueira furada.       


Treinando para um rally 

Santa Maria estaria logo ali, mas dei com a estrada em obras, e havia chovido muito no dia anterior. Nunca vira tanto barro. Veículos, apenas caminhões: uns sendo desatolados por tratores, outros indo e vindo deixando fundos trilhos. E por eles o DKW, firme na segunda marcha e pressão constante no acelerador, avançava. 

Aliviando a tensão, vinham trechos com a base para asfaltamento, mas logo apareciam outros “ensaboados”, levando o carro à dança de bêbado, no ritmo inconfundível daquele miserável tac-tac. 

Finalmente, o DKW, qual bólido da Fórmula 1 rumo à bandeirada da vitória, venceu o percurso final em chão favorável. 

Então, perto das oito horas daquela manhã e vividas intermináveis nove horas de viagem, de nervos abalados e olhos semiabertos, entramos em Santa Maria da Boca do Monte. 

Superados os compromissos, levei o DKW a uma oficina para revisão e reparos. Terminado o serviço, perguntou-me o mecânico com ar de espanto: 
 - A placa do teu auto é de Caxias, mas não vai me contar que tu veio de lá com aquela batidinha que não parava? 
Confirmei contando-lhe nos pormenores os obstáculos enfrentados. 

Aí veio o lance de suspense da história: só por milagre conseguira a proeza, pois o tac-tac fora produzido pelo movimento do suporte quebrado do alternador que poderia ter caído a qualquer momento. 
Por delicadeza, acredito, o sujeito deixou de dizer que eu tivera mais sorte do que juízo. 

Começando a escrever este texto, veio-me à lembrança um dito popular, mais ou menos assim: “carro velho dá somente duas alegrias ao seu dono: uma quando o compra, outra quando o vende”. 

Nego-me a autocensura de deletar a frase anterior, porém, sinto roer-me o remorso por tamanha ingratidão para com meu DKW-Vemag, 1962, o carro velho das três alegrias. 

Mas como nem tudo pode dar certo, o famoso Rally Paris-Dakar daquele ano, por falta de patrocínio ao piloto, perderia um grande competidor...


* Título inspirado no filme “Se meu Fusca falasse”.