Walter Galvani
Como dizia o imenso Carlos Drummond de Andrade, “lutar com as palavras é luta vã, no entanto lutamos, mal rompe a manhã...”
E quando a luta extrapola o campo das palavras, sob o ponto de vista digamos “mecânico” da comunicação, sem que possamos interferir no funcionamento da máquina que a nós se sobrepõe?
Pois é...
Isso é para contar aos eventuais leitores e aos membros da confraria que nos une, “Mecânicos da Palavra”, como enfrentei uma luta árdua neste último fim-de-semana.
Começo por dizer que fiquei muito satisfeito ao ver que os jornais alemães haviam comentado sobre “a câmera frenética” e a “montagem epiléptica” do filme “Tropa de Elite”, características que me desagradam. Aproveitei para registrar também o que a revista “Variety” disse classificando o filme brasileiro como violento, pró-fascista. Sou do tempo do velho cinema de valores pessoais, quando o mergulho nos personagens é que valia a pena, e de uma boa história, com significado e importância. Sim, sou do tempo do Neo-Realismo Italiano, dos “Cahiers du Cinema”, e do próprio cinema americano de John Ford, Michael Curtiz e outros. Aproveitei então para dizer isso, em minha crônica, e citar filmes como “Casablanca”, “No tempo das diligências” ou o moderníssimo “Desejo e Reparação” (“Atonement” no original inglês, que quer dizer “Expiação”, o que é muito mais pesado e profundo do que o simples “Reparação”) e por aí andei.
Com a crônica pronta, enviei-a ao jornal ABC DOMINGO, na quinta-feira à noite, para publicação no domingo, seguindo os prazos determinados pela chefia de redação.
Estes são os males de que sofre quem tem que antecipar um trabalho...
Pois não é que o “Tropa de Elite” ganhou, no fim da tarde de sábado, o “Urso de Ouro” do Festival de Berlim, como “melhor filme”? Todas as indicações apontavam-no como “o azarão”. Pois, “o azarão” ganhou...
Isso não mudou o meu pensamento. Continuo a considerar o filme violento, instrumento de propaganda da ação fascista da polícia e dos mais baixos instintos, adormecidos no subconsciente da platéia que despertam para o aplauso e gritos de “bravo” ou exclamações de baixo calão, quando aparecem na tela os justiçamentos e execuções. Embora tecnicamente bem feito.
Eu não reproduziria a ocupação de tempo da minha vida assistindo outra vez tal película. Mas, claro que não represento a maioria da população brasileira. É justamente o contrário...
Com a premiação, redigi nova abertura para a crônica e enviei ao anoitecer de sábado, uma segunda versão para o jornal ABC DOMINGO. Falando tudo o que falava na primeira crônica, e acentuando minha crítica e dizendo que o filme ganhara o “Urso de Ouro”, prêmio que o Brasil havia alcançado antes, há 10 anos, com “Central do Brasil”, de Walter Salles Jr.
Quase no limite do “fechamento” da redação, enviei uma terceira versão em que atenuava a minha raiva para com os membros do júri do Festival de Berlim, em atenção ao presidente Costa Gravas e para ser justo, mas naturalmente não mudei um milímetro da minha posição ideológica com relação ao filme “Tropa de Elite”.
Aliás, confirmo aqui: continuo com as mesmas posições. Reconheço que o cinema brasileiro, como um todo, receberá um influxo de propaganda positivo, pois não é por um filme ser ruim que se descrê de toda uma atividade. Se fosse assim, o que se pensaria do cinema americano que se caracteriza cada vez mais por espetaculares porcarias?
Ultrapassado o episódio quis contar as vicissitudes de um cronista. Estamos no mesmo barco, “mecânicos da palavra” e, muitas vezes, já enfrentamos dificuldades como esta e na certa enfrentaremos no futuro.