sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

De como escrever três crônicas sobre o mesmo assunto

Walter Galvani


Como dizia o imenso Carlos Drummond de Andrade, “lutar com as palavras é luta vã, no entanto lutamos, mal rompe a manhã...”

E quando a luta extrapola o campo das palavras, sob o ponto de vista digamos “mecânico” da comunicação, sem que possamos interferir no funcionamento da máquina que a nós se sobrepõe?

Pois é...

Isso é para contar aos eventuais leitores e aos membros da confraria que nos une, “Mecânicos da Palavra”, como enfrentei uma luta árdua neste último fim-de-semana.

Começo por dizer que fiquei muito satisfeito ao ver que os jornais alemães haviam comentado sobre “a câmera frenética” e a “montagem epiléptica” do filme “Tropa de Elite”, características que me desagradam. Aproveitei para registrar também o que a revista “Variety” disse classificando o filme brasileiro como violento, pró-fascista. Sou do tempo do velho cinema de valores pessoais, quando o mergulho nos personagens é que valia a pena, e de uma boa história, com significado e importância. Sim, sou do tempo do Neo-Realismo Italiano, dos “Cahiers du Cinema”, e do próprio cinema americano de John Ford, Michael Curtiz e outros. Aproveitei então para dizer isso, em minha crônica, e citar filmes como “Casablanca”, “No tempo das diligências” ou o moderníssimo “Desejo e Reparação” (“Atonement” no original inglês, que quer dizer “Expiação”, o que é muito mais pesado e profundo do que o simples “Reparação”) e por aí andei.

Com a crônica pronta, enviei-a ao jornal ABC DOMINGO, na quinta-feira à noite, para publicação no domingo, seguindo os prazos determinados pela chefia de redação.

Estes são os males de que sofre quem tem que antecipar um trabalho...

Pois não é que o “Tropa de Elite” ganhou, no fim da tarde de sábado, o “Urso de Ouro” do Festival de Berlim, como “melhor filme”? Todas as indicações apontavam-no como “o azarão”. Pois, “o azarão” ganhou...

Isso não mudou o meu pensamento. Continuo a considerar o filme violento, instrumento de propaganda da ação fascista da polícia e dos mais baixos instintos, adormecidos no subconsciente da platéia que despertam para o aplauso e gritos de “bravo” ou exclamações de baixo calão, quando aparecem na tela os justiçamentos e execuções. Embora tecnicamente bem feito.

Eu não reproduziria a ocupação de tempo da minha vida assistindo outra vez tal película. Mas, claro que não represento a maioria da população brasileira. É justamente o contrário...

Com a premiação, redigi nova abertura para a crônica e enviei ao anoitecer de sábado, uma segunda versão para o jornal ABC DOMINGO. Falando tudo o que falava na primeira crônica, e acentuando minha crítica e dizendo que o filme ganhara o “Urso de Ouro”, prêmio que o Brasil havia alcançado antes, há 10 anos, com “Central do Brasil”, de Walter Salles Jr.

Quase no limite do “fechamento” da redação, enviei uma terceira versão em que atenuava a minha raiva para com os membros do júri do Festival de Berlim, em atenção ao presidente Costa Gravas e para ser justo, mas naturalmente não mudei um milímetro da minha posição ideológica com relação ao filme “Tropa de Elite”.

Aliás, confirmo aqui: continuo com as mesmas posições. Reconheço que o cinema brasileiro, como um todo, receberá um influxo de propaganda positivo, pois não é por um filme ser ruim que se descrê de toda uma atividade. Se fosse assim, o que se pensaria do cinema americano que se caracteriza cada vez mais por espetaculares porcarias?

Ultrapassado o episódio quis contar as vicissitudes de um cronista. Estamos no mesmo barco, “mecânicos da palavra” e, muitas vezes, já enfrentamos dificuldades como esta e na certa enfrentaremos no futuro.

8 comentários:

Anônimo disse...

Prezado mestre Walter Galvani:

Nos conceitos e opiniões em torno de "Tropa de Elite", já se sabe, não estás só. Ainda que não tenha visto o filme, tenho a ousadia de
partilhar dos teus comentários. De tanto ler e ouvir sobre ele, achei desnecessário vê-lo. Depois, esse tipo de "fita" em nada ajuda a gente, nem a sociedade na busca pela paz social. E longe de nos proporcionar
algum prazer estético. Talvez desperte, em nós, indesejável morbidez.
Ah, e o esforço de atualização foi devidamente compensado.

Almiro

mila disse...

Queridos Galvani e Almiro,

sou obrigada a discordar de vocês. Tropa de Elite é, para mim, um filme admirável. A sensação que tive ao terminar de vê-lo nunca tive com nenhum outro filme, muito menos brasileiro, pois todos contam sobre um Brasil que não conheço. Quando o filme acabou, tentei respirar fundo, mas não consegui: o mundo estava definitivamente caído sobre a minha cabeça.

Tropa de Elite é moralmente violento. Não respinga sangue, não apela para sentimentalismo, não defende esquerda ou direita, rico ou pobre, policial ou bandido, não defende a população.

Tropa de Elite mostra o que somos, o que fazemos e de que forma agimos, tanto como seres humanos, tanto como cidadãos.

Tropa de Elite dá a cada um a sua devida parcela de culpa, a "sua parte neste latifúndio" de violência, miséria e absurdos sociais no qual vivemos. E o qual alimentamos diariamente.

Louvo Tropa de Elite e principalmente o diretor Padilha.

Acho que cada um tem que fazer um pouco, seja lutando, seja se defendendo, seja metendo o dedo na ferida.

Camila.

Anônimo disse...

Alô, Camila:

Bem articulado o teu elogio à "Tropa de Elite", revelando, especialmente, tua inteligência, sensibilidade, preocupação e a tua respeitável visão acerca do tema proposto. Me comoveu.
Ocorre que, para mim, o filme não traz coisas novas. Os jornais, os telejornais, as rádios, a Internet, as ruas nos servem a toda hora os componentes que fazem "Tropa de Elite". Estou cansado de saber disso tudo. Sob minha ótica, o filme é desnecessário. A discussão, me parece, deveria ser em torno do paradoxo da sociedade exausta e apática, e que pouco ou nada faz para mudar essa realidade. Pior, nem sabe o que fazer.
Daí por que mais proveitosos do que "Tropa de Elite", seriam filmes que nos ajudassem verdadeiramente a encontrar respostas, caminhos.
E esses filmes eu quero ver.

Almiro
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mulher de sardas disse...

Bem, Almiro, só posso te responder uma coisa: assista Tropa de Elite.

Não acredito, sinceramente, que um roteirista ou um diretor tenha que cumprir o papel de "dar respostas" aos problemas que são do governo.

Acredito sim, que roteiristas e diretores devam diariamente expor o Brasil para os seus cidadãos. Cruamente.

Pois cidadãos votam.

Camila.

Isabel Cristina disse...

Blog Vivo

Que interessante diálogo este entre Almiro e Camila pois me proporciona uma "outra mirada".
Entendo as razões de Almiro e concordo. Entendo as razões de Camila e concordo.
Mas faço coro à Camila em sugerir ao Almiro que assista ao filme.
Não pela violência que o filme registra e conhecemos, mas pela sensibilidade que transita nesta violência toda e que exatamente por ela e só por ela identificada poderemos ver que ainda há algo de nobre neste nosso reino.
Ah...e além disso, como estética este filme me seduziu pelo lado inovador do cinema brasileiro, mesmo mantendo o tom "documentário".

Anônimo disse...

Cara Isabel:
Seria eu um chato?
Pois a violência me oprime, me cerca por todos os lados. E isso já é perturbador. Aos meus olhos, aos meus sentidos, aos meus sentimentos, à minha consciência de cidadão pouco vale - seja qual for - a obra de arte que reproduz a violência ou que a eleja como tema central ( não vale incluir Guernica - um retrato): violência física, psicológica, qualquer tipo de violência. Por fim, a estética da violência não me seduz. Apenas desejo dizer que não sinto a menor necessidade de ver Tropa de Elite. Sou minoria? Que pena.
Almiro

mulher de sardas disse...

O problema não é seres a minoria, Almiro, o problema é uma minoria que, talvez, quem sabe, fecha os olhos para as novas Guernicas que hão de surgir.

Camila.

Anônimo disse...

Haveria ruído de comunicação, Camila? Estive tentando dizer, entre outras coisas, - e aproveito a tua referência - que filmes como Tropa de Elite, na minha visão, são dispensáveis para evitar que surjam "novas Guernicas". Se pessoas há que precisam ir ao cinema para saber, para tomar consciência do que se passa no campo da violência neste País, e da imensa, da dolorosa tragédia de tudo o que está à sua volta, tudo bem.
Se há quem ache necessário ver Tropa de Elite para "abrir os olhos" para evitar que outras Guernicas venham, eu respeito. Tudo bem.
Eu só quero ter o direito de dizer, longe, longe de qualquer aceno de arrogância, que, e por tudo que já escrevi alhures, eu não preciso de filmes do gênero para a finalidade de que falamos. E nem acredito que eles ajudem a resolver alguma coisa.
Só isso.
Cordiais saudações.
Almiro