quinta-feira, 27 de março de 2008

Quando surpreende o menu

Almiro Zago

Quando entramos num restaurante desconhecido, seja lá onde for, corremos o risco de viver experiências no mínimo interessantes. Imaginem, então, se Madrid é a cidade e o lugar é daqueles não procurados por turistas.

Pois a sugestão da casa para o almoço oferecia primeiro e segundo pratos e sobremesa -, tudo acompanhado por vinho ou água mineral, a escolher. Ainda com as pernas doloridas das caminhadas, mas antes que a fome se fizesse má conselheira, a aceitamos porque incluía autêntica paella. Ah, claro, fomos de vinho: branco para Irene e tinto para mim.

Algo semelhante havíamos conhecido nas imediações da Porta do Sol, onde um cálice de vinho ou água mineral, inclusos no preço, acompanhavam a comida.
Enquanto aguardávamos o serviço, íamos ganhando a companhia de falantes e bem vestidos "madrileños" e "madrileñas", gente de trinta e poucos anos, em sua maioria. E o restaurante, mesmo sem couvert artístico, surpreendeu-nos com atração extra: uma ruidosa pechada de bandejas encenada por dois apressados garçons. Terminou a performance com um deles no chão, cercado de copos, pratos e garrafas quebrados.

Nesse clima festivo, um garçom arrumou nossa mesa e trouxe duas garrafas de vinho. Alguma coisa está errada, pensei, pois esperávamos apenas duas taças da bebida. Mas o moço esclareceu: "Uma "botellia" por pessoa: branco para a senhora e tinto para o senhor."

Susto à parte, quiçá pudéssemos beber tudo isso durante uma festa, ou numa refeição mais demorada, mas nunca num almoço. Que desperdício!
Bem, já que o nectar dos deuses convidava, começamos a degustá-lo à espera da comida. E com ela, prosseguimos, especialmente com a saborosa paella.
Mas à vez da sobremesa, perto de hora e meia do início do almoço, do vinho tinto apenas lembranças de seu aroma exalavam da garrafa. Cavalheiro que sou, passei a prestigiar o vinho branco da Irene. Para encurtar o caso, ao final, duas garrafas e duas taças vazias sobre a mesa defrontavam-se com um casal contente e sem efeitos colaterais. Está certo, grandes vinhos não eram, mas garanto a excelência deles.

Bem diferente foi o que vivenciamos num pequeno restaurante com mesas na calçada, lembrando cenas de cinema passadas em Roma. Eu sabia que o preço seria salgado, pois era pertinho da Fontana di Trevi. Pensando bem, valeria a pena abrir a mão, coisa de uma vez na vida e outra na morte. Só não contava com a mínima quantidade do prato que escolhera: cinco diminutos "raviolis" temperados com excelente molho, devo reconhecer. Ainda bem que o pão farto salvou-me da fome.

Entretanto, há casos que a surpresa surge de um mal-entendido, garantindo um almoço de comédia. Falo de um restaurante de Dresden, numa travessa perto do rio Elba. Estando na Alemanha, e recém chegados de Praga, tínhamos vontade de comer algum prato à base de salsicha.

No cardápio em inglês nada encontramos; em alemão, menos ainda e o dicionário de viagem não o encontramos onde deveria estar. De todas as maneiras tentamos levar a garçonete a nos entender. Mas ela, além do alemão, nada sabia e nem versada era na linguagem dos sinais. Como último recurso, ocorreu-me luminosa idéia: desenhar uma salsicha num pedaço de papel. E desenhamos. Mostramos à moça e ela sorridente parecia ter captado a mensagem, pois apontou o menu para que escolhêssemos o molho. Molho holandês, quisemos.

Nem bem provamos a legítima cerveja alemã, e toda risonha aproximou-se a atendente, colocando dois pratos grandes sobre a mesa. Finalmente as salsichas, festejamos. Com uma expressão que parecia significar "bom apetite", ela se afastou, e nós, com espanto, vimos dois pratos de aspargos verdes ao molho holandês. Decepção à parte, estavam deliciosos. Porém, uma dúvida ainda hoje me traz inquietação: fomos nós que não soubemos desenhar ou a garçonete não conhecia salsicha?

4 comentários:

Isabel Cristina disse...

Você não pode imaginar que delícia, literária e gastronômica, ler sua crônica neste momento.
Sua crônica termina exatamente onde, como leitora, sinto-me íntima e à espera de seu convite para acompanhá-los. Bucareste?
Você consegue trazer elegância e humor para o meu final de semana.
Aposto minha futura autobiografia num livro seu sobre viagens. ;))

Anônimo disse...

Isabel:
Nada de ilusões. Foram poucas as minhas viagens. Se diferente parece ser é porque passei a escrever sobre pequenos fatos interessantes, esses que as marcam mais do que se imagina. Seria temeridade, por certo, aceitar a tua aposta. Mesmo porque estarei presente à sessão de autógrafos de tua autobiografia. Quanto ao convite, Irene e eu apreciaríamos a tua companhia. Mas poderia ser outro destino?

mulher de sardas disse...

O que importa o tamanho e a quantidade das viagens?

Crônicas são feitas por detalhes... Livros são feitos por detalhes... O verdadeiro escritor não precisa nem mesmo viajar... Precisa, de alguma forma, estar lá.

Almiro! Amo teus relatos!

Abraços,

Camila.

Isabel Cristina disse...

Perdão Almiro por invadir seu espaço, mas preciso dizer que esta resposta de Camila foi genial.
Agora beijo nos dois. Aliás, beijo nos três, pois Irene será a co-piloto do livro de viagens!

Isabel Cristina