terça-feira, 23 de março de 2010
Verão, o que resta para contar:
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Procura-se
quarta-feira, 20 de maio de 2015
Ah, se o espelho ajudasse
sábado, 26 de junho de 2010
“Un attimo”, por favor
Antes da gente se chatear com outra pessoa, sugere a sabedoria, se lhe damos chance, que procuremos saber a razão que a leva a agir desse ou daquele modo desagradável ou aparentemente prejudicial para nós.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Quando surpreende o menu
quinta-feira, 27 de março de 2008
Quando surpreende o menu
Quando entramos num restaurante desconhecido, seja lá onde for, corremos o risco de viver experiências no mínimo interessantes. Imaginem, então, se Madrid é a cidade e o lugar é daqueles não procurados por turistas.
Pois a sugestão da casa para o almoço oferecia primeiro e segundo pratos e sobremesa -, tudo acompanhado por vinho ou água mineral, a escolher. Ainda com as pernas doloridas das caminhadas, mas antes que a fome se fizesse má conselheira, a aceitamos porque incluía autêntica paella. Ah, claro, fomos de vinho: branco para Irene e tinto para mim.
Algo semelhante havíamos conhecido nas imediações da Porta do Sol, onde um cálice de vinho ou água mineral, inclusos no preço, acompanhavam a comida.
Enquanto aguardávamos o serviço, íamos ganhando a companhia de falantes e bem vestidos "madrileños" e "madrileñas", gente de trinta e poucos anos, em sua maioria. E o restaurante, mesmo sem couvert artístico, surpreendeu-nos com atração extra: uma ruidosa pechada de bandejas encenada por dois apressados garçons. Terminou a performance com um deles no chão, cercado de copos, pratos e garrafas quebrados.
Nesse clima festivo, um garçom arrumou nossa mesa e trouxe duas garrafas de vinho. Alguma coisa está errada, pensei, pois esperávamos apenas duas taças da bebida. Mas o moço esclareceu: "Uma "botellia" por pessoa: branco para a senhora e tinto para o senhor."
Susto à parte, quiçá pudéssemos beber tudo isso durante uma festa, ou numa refeição mais demorada, mas nunca num almoço. Que desperdício!
Bem, já que o nectar dos deuses convidava, começamos a degustá-lo à espera da comida. E com ela, prosseguimos, especialmente com a saborosa paella.
Mas à vez da sobremesa, perto de hora e meia do início do almoço, do vinho tinto apenas lembranças de seu aroma exalavam da garrafa. Cavalheiro que sou, passei a prestigiar o vinho branco da Irene. Para encurtar o caso, ao final, duas garrafas e duas taças vazias sobre a mesa defrontavam-se com um casal contente e sem efeitos colaterais. Está certo, grandes vinhos não eram, mas garanto a excelência deles.
Bem diferente foi o que vivenciamos num pequeno restaurante com mesas na calçada, lembrando cenas de cinema passadas em Roma. Eu sabia que o preço seria salgado, pois era pertinho da Fontana di Trevi. Pensando bem, valeria a pena abrir a mão, coisa de uma vez na vida e outra na morte. Só não contava com a mínima quantidade do prato que escolhera: cinco diminutos "raviolis" temperados com excelente molho, devo reconhecer. Ainda bem que o pão farto salvou-me da fome.
Entretanto, há casos que a surpresa surge de um mal-entendido, garantindo um almoço de comédia. Falo de um restaurante de Dresden, numa travessa perto do rio Elba. Estando na Alemanha, e recém chegados de Praga, tínhamos vontade de comer algum prato à base de salsicha.
No cardápio em inglês nada encontramos; em alemão, menos ainda e o dicionário de viagem não o encontramos onde deveria estar. De todas as maneiras tentamos levar a garçonete a nos entender. Mas ela, além do alemão, nada sabia e nem versada era na linguagem dos sinais. Como último recurso, ocorreu-me luminosa idéia: desenhar uma salsicha num pedaço de papel. E desenhamos. Mostramos à moça e ela sorridente parecia ter captado a mensagem, pois apontou o menu para que escolhêssemos o molho. Molho holandês, quisemos.
Nem bem provamos a legítima cerveja alemã, e toda risonha aproximou-se a atendente, colocando dois pratos grandes sobre a mesa. Finalmente as salsichas, festejamos. Com uma expressão que parecia significar "bom apetite", ela se afastou, e nós, com espanto, vimos dois pratos de aspargos verdes ao molho holandês. Decepção à parte, estavam deliciosos. Porém, uma dúvida ainda hoje me traz inquietação: fomos nós que não soubemos desenhar ou a garçonete não conhecia salsicha?
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Adivinha quem gosta de ler?
Ruínas da Biblioteca de Celso, em Éfeso, Turquia
Se existe uma coisa que eu não possa imaginar é viver sem leitura. Ler livros, jornais, revistas, ou publicações eletrônicas, e isso nem novidade é, fortalece a contínua ligação com a vida, com o mundo exterior. Pensando bem, ler não seria um ato de liberdade, de independência?
Sem distinção de gênero literário, parece-me seja o livro o que mais fascina e encanta o leitor. Seu imaginário o leva a visitar gentes e paisagens desconhecidas e a descobertas, como a de Fernando Pessoa: "Descobri que a leitura é uma forma servil de sonhar. Se tenho de sonhar, porque não sonhar os meus próprios sonhos?"
Freqüentemente, ouve-se falar da solidão, infelicidade de muita gente. Porém, o amante da leitura desse mal não padece. E, também, entende que "é preferível e muito mais enaltecedora uma solidão povoada de lembranças do que uma promiscuidade física opaca e insignificante, ouvindo palavras vazias, inúteis", segundo Delmino Gritti, no ensaio "O futuro do passado".
Por ser o livro, certamente, o mais amado meio de levar cultura e transmitir idéias, de emocionar e cultivar a sensibilidade das pessoas, sempre se fala em estímulo à leitura, da importância de ler, de facilitar o acesso do povo ao livro. E há quem o faça de maneira muito original, como o poeta Sérgio Vaz, em São Paulo, com o sarau semanal de poesia da Cooperativa Cultural da Periferia, no Bar do Zé Batidão, inclusive com distribuição de livros. Foi o que li na crônica do escritor Ricardo Silvestrin, ZH 4/12/08, que participou de um desses encontros.
Em nosso País, de baixos e humilhantes índices de leitura, vemos muita gente de elevado grau de escolaridade e boas condições econômicas sem afeição pela leitura. Para consolo, encontramos outras pessoas determinadas a ler e que lêem, a despeito de sua parca instrução e limitados recursos. E existem, asseguro, pois em menos de dois meses conheci três desses leitores, como vou contar.
Surpreendi-me, certo dia, em plena cozinha de casa a conversar sobre livros e o gosto pela leitura com a senhora que, na ocasião, prestava serviços domésticos. Contou-me de suas preferências literárias e, inclusive, de já ter lido quase toda a série "As Brumas de Avalon", de Marion Zimmer Bradley. Além disso, vem cuidando de passar aos filhos o amor pelo livro.
Depois, ainda em minha casa, um jovem eletricista cuidava de solucionar problemas de iluminação. Por mero acaso, passei perto dele com um exemplar de "Uma temporada no inferno". E, surpreso, ouvi : "Ah, o senhor está lendo Arthur Rimbaud? Espontâneo, revelou-me razoável lista de livros já lidos e a ler, atento a um futuro vestibular assinalado em seus planos.
Todavia, a surpresa mais fascinante por mim esperava na tarde de inauguração da 54ª Feira do Livro de Porto Alegre. Na Praça da Alfândega, sentei-me numa banca de engraxate, onde era de uma mulher o trabalho de passar graxa e lustrar os sapatos. Puxando conversa, perguntei-lhe se a Feira trazia mais clientes.
- Ao contrário, - respondeu-me. - Agora, as atenções vão para os livros.
Com certa desesperança, confidenciou que gostaria muito de ler "Paula", de Isabel Allende, mas temia que o preço do livro não estivesse ao seu alcance.
Seu encanto pela leitura, disse-me, começara na infância e com "Meu pé de laranja lima", de José Mauro de Vasconcelos.
Bem, de calçados brilhando, fui embora.
Ainda naquela tarde, pude retornar para oferecer a ela, em volume usado, "Paula", da notável escritora chilena.
E aí... brilharam os olhos da engraxate leitora.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
fevereiro de 2007
BREVE RELATO
Marco Antônio Poglia
Conheci, no ano passado, um senhor chamado Jaime Viñas. Tinha sessenta e três anos de idade - intensamente vividos, pelas histórias que contava. Com sua voz aguda e ar entusiasmado, falava sobre suas andanças pelo sul do continente e sobre as variadas aptidões que possuía, e que lhe permitiram trabalhar em diversos setores de serviços, além de ser pescador e por muitos anos praticante de boxe e natação.
De origem uruguaia, orgulhava-se de falar a língua castelhana. Talvez por isso gostasse tanto de autores latino-americanos, como Juan Ramón Jiménes, Jorge Luis Borges, García Márquez e Neruda. Também cantarolava tangos de Carlos Gardel, que sempre considerou melhor que Piazzolla. Não pronunciava mais do que algumas frases em inglês - e outras em língua que dizia ser francesa, e eu acreditava - mas gostava muito de Alan Poe e Ernest Heminguay. E ainda Dostoievski e, no Brasil, Aluísio de Azevedo.
Já há alguns anos Seu Jaime andava pelo Bom Fim, onde acabou se estabelecendo. Morava na rua Tomás Flores, esquina com a Vasco da Gama. Rodeada de prédios pequenos e quase ausente de estabelecimentos de comércio, é uma rua sombria e muito tranqüila à noite - pelo menos aos que habitam esses prédios. Mas não era o caso do Seu Jaime, que como disse, morava na rua (a rua Tomás Flores).
Na última vez que o vi, em outubro passado, estava muito abatido. Visivelmente doente, sentado na beira da calçada com olhar triste e desfocado. "O cara que tá nessa vida tá sujeito a ficar depressivo", resmungava cabisbaixo, enquanto lhe escorria uma lágrima esbranquiçada sobre o rosto. Perguntei o motivo da sua tristeza mais pra ter assunto do que pra confirmar o que notava: todos os seus pertences (papelões, garrafas, cobertores) haviam sido levados, e sua moradia se resumia agora a um muro branco com cartazes eleitoreiros e uma calçada, limpa, para o trânsito do povo educado.
Fui embora com a sensação de que não iria mais encontrá-lo. Passados alguns dias retornei com alimentos e um cobertor, mas antes disso cumpriu-se minha profecia. Sob o laudo de coma alcoólica e registro como indigente, seu provável futuro foi servir para experimentos da faculdade de medicina. Hoje melhor compreendo por que nas ruas de Porto Alegre homens dormem abraçados em seus pertences. "Quando a gente gosta é claro que a gente cuida". Há alguns dias, caminhando na rua da República pela manhã, uma cena lastimável me aperta o peito: um menino dormia sobre a calçada, com uns farrapos de roupas e um pedaço de cobertor, entornando com um dos braços seu único e perecível objeto de apreço: uma banana madura, talvez por muitos desejada.
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007
PROSTITUIÇÃO
Américo Conte
Não estou aqui, absolutamente, a tomar partido do que quer que seja e nem a defender atitudes que também independem de qualquer avaliação. Mas, simplesmente a frisar conceitos que não posso deixar de observar.
Vivemos inseridos em uma sociedade que tem como norma impressionar-se com tudo que visceralmente se relaciona ao corpo físico. É lógico que imprescindivelmente o corpo é tudo do que dispomos para a possibilidade dos contatos e relações, desde os mais afetuosos e sexuais deleites, assim como os atritos e mortais agressões. Todavia a violência imposta pelas exigências da beleza e da jovialidade com os seus vestuários de grife, como se estes fatores fossem indispensáveis para a realização de um humano, insensivelmente passam desapercebidos. E cada indivíduo que se vire e se desdobre como puder na procura e na manutenção destes atributos. A conjuntura a respeito sobre a subsistência dos caprichos sociais de um cidadão, não é condescendente com ninguém. E salve-se quem puder.
No entanto as pessoas ficam totalmente chocadas e intolerantes com o uso do corpo como meio de sobrevivência, através da prostituição sexual.
Acredito que só a disponibilidade do corpo para todo e qualquer ofício, é o menor dos malefícios. Porque as empresas, instituições e ideologias, não se contentam simplesmente com a absorção desta matéria. Elas exigem bem mais, para o sucesso de seus empreendimentos e objetivos. Querem suas mentes, suas essências e suas energias que sugam sem piedade até a última gota deste sumo. E pela falta de oportunidades e perspectivas, manipulados ou inconscientes, homens e mulheres entregam a sua saúde, sua alma e os seus sonhos a preços irrisórios, prostituindo-se e abdicando dos seus ideais em prol de supostas facilidades que aparentemente inofensivas comprometem a integridade do seu ser e os mantém escravos, dependentes e subservientes de artificialidades por uma vida inteira.
E muitas e muitas vezes, vazios e desencantados, estes seres vem suprir as suas carências nos corpos dos que abominavelmente condenam como réprobos.
AMADOS BICHINHOS
Américo Conte
A galinha não estava
no quintal, para enfeite,
mesmo os seus ovos fresquinhos
não a poupavam do batente.
Entre as plantas verdejantes,
tinha um oficio a desempenhar,
catar formigas e lesmas,
também outras pragas...
que as viessem ameaçar.
Se acaso em sua missão
ela viesse a falhar,
na cozinha, a panela,
era um espectro...
a lhe aterrorizar.
Todo bicho queridinho
sempre tem uma função,
e se ele não se comporta,
o destino, não há se ser bom.
O homem é sempre companheiro
se fizerem o que ele quer,
mas, se acaso é desacatado,
salve-se quem puder!
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
O GOSTO DO BEIJO
Karen Scopel
Doces, eles eram sua obsessão, sua mania, comia-os muito devagar, saboreando cada pedaço, deixando aquele que mais gostava por último, assim permanecia com seu gosto na boca por mais tempo. Enquanto a maioria das pessoas morde o bolo começando pela cobertura, ela não, ia comendo aos pouquinhos e, por último, se deliciava com a cobertura.
Esperava que no amor também fosse assim, queria encontrar um homem e sentir o seu gosto, de preferência se deliciar com ele para sempre. A primeira vez que viu Lucas, ele estava podando as árvores no jardim da casa vizinha, da janela do segundo andar pôde admirá-lo. Ele parecia cuidar tão bem daquelas plantas que ela chegou a pensar que um dia gostaria que ele tivesse com ela os mesmos cuidados.
No dia seguinte, convenceu a dona da casa em que trabalhava de que o jardim precisava de melhorias e que, inclusive, o da sua vizinha estava muito bonito. O novo jardineiro era entendido no assunto e de confiança, ela já havia se informado.
Foi assim que Lucas entrou em suas vidas, na dela e na de Júlia, para quem trabalhava fazia dois anos. Já no primeiro dia, esforçou-se em ser notada pelo jardineiro, de hora em hora lhe levava água ou refrescos, no meio da tarde providenciou até um lanche, imaginou que o rapaz devia ser tímido, pois mal levantava os olhos para lhe agradecer.
Veio o fim da tarde, e com ele, Júlia. Uma mulher alta, de olhos claros e cabelos longos. Naquele dia vestia uma saia de florzinhas e uma blusa branca, estava bonita. Da mesma janela em que observava Lucas, viu Júlia ultrapassando o portão, pôde ver, também, que ele finalmente ergueu os olhos, enxugou o suor do rosto um pouco envergonhado e olhou Júlia com um misto de surpresa e fascinação. Conversaram um pouco sobre as mudanças no jardim, enquanto ela permanecia na janela, sentindo um aperto no peito e um arrepio que lhe cortava a alma. Sem entender muito bem o porquê, desviou o olhar e fechou a cortina.
Nos dias que se passaram continuou tentando agradar Lucas, arrumava-se melhor, estava sempre com a boca pintada de um batom cor-de-boca, como a vendedora da loja lhe havia dito, passou a usar o perfume ganho no Natal e que reservava apenas para as datas especiais. Achava que valia a pena usá-lo para o Lucas. Para seu desespero, passou a notar que ele, ao final da tarde, antes que Júlia chegasse, usava a mangueira do jardim para se lavar, começou também a trocar a camiseta suada por outra limpa, que trazia dobrada com cuidado dentro da sua mochila de trabalhador.
Que gosto teria aquele beijo? Era só nisto que ela pensava. Acordava no meio da noite durante seus sonhos, nos quais beijava Lucas e jurava sentir seu gosto, doce e quente como uma calda de chocolate, daquelas que se coloca sobre o sorvete e que se delicía aos pouquinhos.
Lucas estava quase terminando seu trabalho no jardim, enquanto ela se desesperava, seria preciso se declarar a ele, não poderia esperar mais. Passou, então, a imaginar uma maneira de fazer isto. Pronto, ao final do dia iria convidá-lo para o tal sorvete, o do sonho, tinha certeza que aquele beijo seria seu.
O fim do dia chegou e ela, perdida em seus pensamentos, nem notou o retorno de Júlia. Era chegada a hora de falar com Lucas e fazer o tal convite. Ao chegar ao jardim, porém, suas pernas começaram a tremer e lhe pareceu que o seu mundo desabava. Lá estavam Lucas e Júlia saboreando o beijo um do outro, sentindo o gosto que ela imaginava, seria só seu a partir daquele dia.
Aos poucos foi se afastando, devagar, para que sua presença não fosse percebida, entrou na casa, pegou sua bolsa e, como se estivesse em transe, foi embora, saboreando um gosto amargo, bem diferente do que sonhou, mas que, com certeza, não esqueceria jamais.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Agora, o caso da janela
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
MINHA TARDE ORIENTAL
Quando vamos a algum lugar, quase sempre somos tentados, mesmo inconscientemente, a levar, passar adiante ou a criar estereótipos sobre o modo de ser e as características de sua gente. Pode acontecer que, vez ou outra, carreguem uma pontinha de verdade, mas todo o mais vai por conta da fácil generalização. Só para ficar com um exemplo, quem já não ouviu dizer que os franceses, os parisienses em particular, são mal-humorados ou coisa assim? Pois é, mas de minha parte, em diversos contatos com eles mantidos, aquele lugar-comum não vingou. E disso dou meu fiel testemunho revelando um interessante fato acontecido comigo só para dar bem uma idéia de como podem ser superficiais ou falsos os rótulos que afixamos nos outros.
Adentramos, minha mulher e eu, a uma pequena agência de turismo, às margens do Sena, no Quartier Latin. Ali, a única atendente, mulher de pouco mais de 40 anos, diante do computador ocupava-se com um cliente ao telefone. E demorava porque a pessoa do outro lado da linha era um daqueles tipos perguntinha, querendo tudo nos mínimos detalhes.
Pouco antes, dirigindo-nos ao balcão de atendimento, éramos os únicos clientes, mas, logo depois, ao voltar-me vi que já se havia formado uma fila às nossas costas. E a atarefada funcionária sem conseguir liberar-se do seu chato tele cliente. Mas em dado momento, mostrando-se preocupada com as diversas pessoas à espera, mirou-nos com um expressivo olhar teatral que tanto poderia ser um pedido de socorro quanto - desculpem, vejam só esse sujeito ao telefone não pára mais de perguntar coisas, e vocês aí esperando...
Bem, finalmente, terminou a negociação telefônica e fomos atendidos. Queríamos pouca coisa. Só dois bilhetes para o passeio, daquela tarde mesmo, à casa e jardins de Monet, em Giverny, a uns 70 quilômetros de Paris. Damos os nossos nomes e a mulher ao computador, confiante em sua percepção auditiva, rapidamente tudo registrou, concluindo o serviço com a impressão dos bilhetes. Colocados à nossa frente, enquanto eu providenciava o pagamento, minha mulher observou que o meu nome estava errado. E a atendente, preocupada em não tomar mais tempo com a correção e impressão de outro bilhete, minimizou ponderando que não haveria problema, pois serviria, apenas, de crachá de controle interno.
Mas aí ao apanhar o papel pude conhecer minha novíssima identidade. Passara a ser Nirosago por uma criativa e exótica redução, mais parecendo um nome artístico.
Impregnado pelos bons fluídos da expectativa de admirar as lindas paisagens que inspiraram o mestre do impressionismo, olhei para ela decidido a disfarçar o aborrecimento. Ensaiando um tom compreensivo, acabei concordando:
- Está bem, está bem...
E a atendente, agradecida, exibindo aquele sorriso que vai da boca às orelhas, confortou-me de uma maneira muito original, dizendo:
- Assim o senhor pode dizer que é japonês, não é?
Não pude deixar de achar graça, pois, além do mais, foi bacana ver outra vez desmentido um clichê sobre os parisienses.
Mas, em compensação, passei aquela tarde buscando achar alguma coisa em comum entre a minha cara e a dos muitos japoneses que encontrei no passeio a Giverny.
Sem sucesso, claro.

