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terça-feira, 23 de março de 2010

Verão, o que resta para contar:


Senhor, senhor...

 Almiro Zago

Na praia, a gente vai ao supermercado quando precisa,  ainda que seja ao final de uma tarde de fevereiro, quente como a sala de espera do  inferno.   Ar condicionado, talvez até  houvesse, mas  não soprava em direção favorável.

Cestinho na mão direita, com uns poucos itens de compras, entrei na fila menos longa. Claro, fiquei no último lugar. Na  frente,  umas sete ou oito pessoas de ambos os sexos - se é que ainda se pode usar a expressão -  e de diversas idades,   não conferidas, esclareço.

Se esperar era preciso, procurei conformação no pensamento singrando o mar de Canasvieiras, ali vizinho, amenizando a suada realidade ambiente. Pois nesse etéreo  estado, aos meus ouvidos chegou o que parecia ser uma  pregadora fanática: "Senhor, senhor..."

Certo burburinho na fila religou-me à realidade.  De  novo, lá na frente, a voz de mulher: "Senhor, senhor..."

E todos à  volta na ânsia de que aparecesse  a incógnita figura. Ninguém se acusava. 

Notei, então,  as pessoas da fileira,  de diante para trás,  à procura do "senhor";  um a um, os olhares foram fixando-se... na minha cara.

Incansável,  a moça ainda chamava:  "Senhor, senhor..."

Por um vigésimo de instante, acreditei que o autor de "Mínimas Confissões" tivesse sido identificado e ela quisesse um autógrafo.

Ao contrário, cívico era seu propósito: fazer valer a "caixa de atendimento prioritário". Se deficientes físicos não havia, nem grávidas, nem mães com crianças de colo,  bem visíveis apareciam meus  67 anos, um mês e alguns dias.

Embora não vivamos aos beijinhos e afagos, tenho andado de bem com minha realidade corpórea, mas a vaidade atrás da orelha percebeu que ninguém teve a mínima dúvida de que  o idoso   fosse eu. Também não se  ouviu  coisas do tipo "nem parece; não aparenta a idade que tem."

Apenas o amável argentino, que me precedia,  apresentou-me a  todos:

- É o tio aqui.

- Não, não, é "nonno" mesmo, respondi-lhe. (Queria dizer "abuelo") 

E a moça sorridente, agora olhando-me nos olhos:

Senhor,  passe aqui pra frente...

Vi a fila encolher-se em meia-lua, e na mira de curiosos olhares   vivi meus 5 segundos de fama  rumo ao balcãozinho da caixa.

Ao final, senti-me encantado, pois raras vezes na minha vida  alguém tanto empenhou-se para garantir-me um direito como essa funcionária do supermercado.*

Agora, se os meus leitores desejarem deliciar-se com magistral crônica com tema semelhante, recomendo "Um idoso na fila do Detran", de Zuenir Ventura. Eu a li "Nas cem melhores crônicas brasileiras", antologia organizada por Joaquim Ferreira dos Santos, Objetiva, pág. 265.

Fica combinado: nada de comparações.

                                             *  *  *  * *

*Supermercado Imperatriz, de Canasvieiras, Florianópolis

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Procura-se

Procura-se um cachorro perdido, uma criança desaparecida, um carro roubado, um emprego. Procura-se um tapete lilás, um apartamento novo, uma doença, um marido.

Alfredo procurava uma doméstica, a moça dos anúncios classificados pediu que ele repetisse mais de uma vez o que desejava: “Procura-se uma empregada que não fale com o patrão”. Sim, era isso o que ele queria que saísse no jornal de domingo, a pessoa não precisava ser muda, apenas calada. Sua última empregada, D. Valdete, havia transformado seus dias em um inferno de palavras ditas, nunca imaginou que alguém pudesse pronunciar tantas frases e emendar assuntos desconexos como se fizessem parte da mesma trama. Por vezes, pegou-se duvidando de sua própria capacidade de interpretar o que ela lhe dizia, afinal, perdia-se no meio da história e, claro, era melhor não tentar esclarecer com ela suas dúvidas, pois isto seria motivo para mais assunto. No início, a observava espantado esperando que a mulher fizesse uma pausa de alguns segundos para respirar. Em seus pensamentos chegava a vê-la arroxeando as bochechas e caindo desmaiada por falta de ar, mas não, ela tinha uma técnica incrível, falava sem parar e respirava ao mesmo tempo.

Nos anúncios, Alfredo buscava as mais diversas coisas, sempre gostou de ler os classificados, mas até nisto aquela infeliz lhe atrapalhava. Um dia, achando que o jornal tivesse vindo pela metade, ele resmungou reclamando:

- Era só o que me faltava, meu jornal foi entregue faltando uma parte.

D. Valdete, muito prestativa, retrucou, como se ele tivesse lhe dirigido a palavra:

- Não, seu Alfredo, seu jornal veio completo, eu é que peguei os classificados, que não servem para nada mesmo, e usei para limpar os vidros, tiram a gordura e não deixam um risco sequer. Ah! O senhor prefere frango ou guisado para o almoço? A empregada do apartamento vizinho me contou que a patroa dela está de namorado novo, o que é que o senhor acha? Está meio passada, é uns anos mais velha que eu, acho até que regula em idade com o senhor...

Ela continuou falando, ele se deixou cair mudo e vencido sobre o sofá.

Alfredo procurava sobreviver às overdoses verbais impostas pela empregada. Numa manhã chuvosa de sábado, pensava sobre o que lhe seria mais conveniente, comprar protetores de ouvidos, mandá-la calar a boca ou despedi-la. Também imaginava, ansioso, o quão prazerosos seriam a tarde daquele dia e o domingo. D. Valdete, aos sábados, ia embora após o almoço e ele, finalmente, ficaria sozinho, poderia ler os classificados e ver televisão sem ser interrompido por nenhum comentário descabido.

- Seu Alfredo, o senhor prefere os ovos bem cozidos ou com a gema mole?

Ela sabia a resposta, toda a vez fazia a mesma pergunta.

- São bem cozidos, D. Valdete.

O senhor deveria variar o cardápio do sábado, seu Alfredo, sempre risoto e ovos cozidos, não enjoa não? Posso fazer uma feijoada para o próximo, quem sabe uma lasanha, isto sim é que é almoço de sábado, aprendi a fazer umas almôndegas que o senhor ia adorar. Lembra do namorado novo da vizinha, parece que trocou ela por outra mais nova, eu bem que falei que não ia dar certo, agora a velha quer fazer uma plástica, se esticar mais não vai adiantar nada, o porteiro me disse que ele mandou umas flores terminando tudo e ela fez um escândalo na portaria.

Na sala, sentado em sua poltrona reclinável, Alfredo sacudia os pés e mal conseguia segurar o jornal, tremia de irritação. A voz daquela mulher reverberava em sua cabeça, causando-lhe náuseas e embaralhando seus pensamentos. Levantou-se com dificuldade e caminhou de um lado para o outro como que perdido, preferia bater com a própria cabeça contra a parede do que continuar a ouvir aquela voz. Estaria ela falando sozinha, delirando, ou pior, tentando enlouquecê-lo? Aproximou-se da janela, poderia atirar-se dali ou, então, atirá-la, não, isso não poderia estar acontecendo, na tentativa de acalmar-se foi para o quarto. Alguns minutos depois, D. Valdete, com o intuito de avisá-lo que a comida estava pronta, foi atrás dele.

- Ué, seu Alfredo, não está bem, resolveu se deitar? Venha almoçar primeiro, mais tarde o senhor descansa, mas também, descansar do que, não fez nada hoje, passou a manhã sentado lendo o jornal.

O homem olhou-a de soslaio, abriu uma gaveta do criado mudo e tirou de lá uma tesoura, a mesma que usava para recortar do jornal os anúncios que achava mais interessantes, levantou-se devagar e caminhou lentamente em direção a ela.

- Não D. Valdete, vou fazer algo que eu já deveria ter feito! – gritou. A mulher, espantada, recuou enquanto ele seguia vagarosamente em sua direção.

- Vou cortar a tua língua, assim não vais conseguir infernizar mais ninguém, não sei como não pensei nisto antes!

Ela esboçou um sorriso de estranheza, afinal o patrão nunca fora dado a este tipo de brincadeira, porém, em poucos segundos, percebeu seu olhar nebuloso, deu mais alguns passos para trás, virou-se e saiu tão rápida quanto a idade lhe permitia. Passaram, então, a correr pelo apartamento tal gato e rato, dois velhos enlouquecidos, desviando de mesas e cadeiras, tropeçando no sofá e nos próprios pés, ela gritando por socorro e ele xingando-lhe.

- Seus dias de faladeira acabarão agora, pare aí que vais ver!

D. Valdete conseguiu abrir a porta e fugir para o corredor, foi amparada pelo porteiro, que subira correndo os dois lances de escada para verificar o que estava acontecendo. O rapaz, ainda sem entender nada, olhou surpreso para Alfredo, que ainda empunhando a tesoura gritou:

- Isto! Segura que vou cortar-lhe a língua.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Ah, se o espelho ajudasse

Almiro Zago

Faz algum tempo, andei lendo belos textos de escritores famosos contando, com inteligente senso de humor e aquela fina ironia, fatos que os despertaram para a velhice chegando.

Agora, talento e qualidade à parte, não soube de nenhum dos autores ter vivenciado um feito tão insólito quanto o ocorrido a certo aprendiz de cronista, forçando-o a reconhecer-se na fase do natural declínio do corpo e da mente.

Pois no friozinho da manhã soavam rápidas as passadas em minha direção. Era um tanto perturbador o que ouvia, assim, como se alguém me quisesse alcançar. Os apressadinhos toques nas pedras do passeio denunciavam passos de salto alto.

Em pouco, vulto em aproximação se fazia perceber; um pouquinho mais, e um par de pés sobre dez centímetros de taco fino ia me deixando para trás. Ainda que de tênis estivesse, meu caminhar mais não rendia, salvo sensações bem conhecidas pelos vencidos de Gre-Nal.

Certeza nem tenho, mas pode ter acontecido lá pela entrada dos meus 70. Todavia, guardo o registro de ter sido essa a causa que, definitivamente, me levou a admitir: estou ficando velho, o que para você, talvez, novidade nem fosse.

Eppure sono contento, no entanto, estou contente, como diria a voz de Edoardo Vianello em “O mio signore”, canção italiana dos anos 1960, acessível via Internet. Obviedades fora, só envelhece quem vive, ou melhor, sobrevive nesta realidade assinalada por fortes traços de barbárie, a despeito dos fantásticos avanços científicos e tecnológicos.

Outros sinais, não decifrados, me haviam chegado anteriormente, como aquele revelado neste mesmo blog na crônica Senhor,senhor. Porém, nada com a força persuasiva do caso aí de cima.

Ah, em tempo!, o lado bom existe, sim, e o que mais enternece o coração e amacia o viver  chama-se netos.

Sem aviso, soube por intuição que nas faixas da terceira idade há rituais a observar. Em atenção a um deles, enfrentei, no recente abril, as cataratas, não as do Iguaçu, nem a cascata de Galópolis, mas aquelas dos olhos, um procedimento cirúrgico inescapável para muitos dos enquadrados nesse estágio.  

Por obra dessa intervenção médica e pelas maravilhas da ótica, ou óptica?, passei  a enxergar,  a ver tão  bem  como  se fora o adolescente sonhador.

Mas em vista de meu desdém por um indiscreto efeito colateral, descuidei  do preparo psicológico e fragilizado compareci ao pouco amável confronto no espelho — entre o novo no olhar e o velho na figura…

Eppure, estou contente!    

*** 

Maio de 2015  



sábado, 26 de junho de 2010

“Un attimo”, por favor

Almiro Zago


Antes da gente se chatear com outra pessoa,    sugere a sabedoria, se lhe damos chance,  que procuremos saber a razão que a leva a  agir desse ou daquele modo desagradável ou aparentemente prejudicial para nós.

Sempre valerá a pena, pois esse mínimo cuidado pode conduzir  à recíproca compreensão  e lançar pontes de cordialidade no convívio social, por onde passarão os bons gestos e atitudes, desses que  contam, sim, para o dia feliz de cada um.

E além do  mais, essa desejável conduta poderá nos livrar   de constrangimentos ou  situações desconfortáveis.

Se a relação desenvolve-se ao telefone, na ausência do face a face, por suposto, tudo fica mais complicado, motivo a mais para cultivar a virtude da paciência e a boa vontade.

Pois, nem faz tanto, precisei fazer um telefonema a um conhecido italiano, que viria tornar-se um bom amigo. Assim, disquei, ou melhor, digitei a carreira de algarismos que compunham o número, e, lá do norte da Itália, uma voz de mulher atendeu:
- Pronto!
- Bom dia, sou fulano de tal, de Porto Alegre, Brasil. Gostaria de falar com o seu Renato. Ele está?
- Não, não se encontra. Está trabalhando, a essa hora.

Interessado em salvar a dispendiosa ligação internacional, e  sendo simples o que pretendia, perguntei-lhe:
- A senhora poderia fazer a gentileza de anotar um recado pra ele?
- Sim, certamente, mas aguarde um "attimo", pois preciso apanhar uma caneta. Passado um tempinho:
- O senhor pode dizer...

Passei, então, a ditar a primeira parte, explicitando o nome de certa pessoa com três palavras. E ela:
- Um "attimo", por  favor.

Seguiram-se nem sei quantos segundos de silêncio até:
- Pode continuar.

E eu prosseguia com o breve texto, porém, a cada quatro ou cinco palavras:
- Um "attimo"...

Silêncio de muitos átimos  e:
– Pode prosseguir...

Seria como se houvesse uma deixa para intervenção de alguém, sem, contudo, consumar-se.
Ia ficando curioso, queria entender o que se passava do outro lado da linha, além-mar, com a gentil senhora.

Meu ditado era lento, de frases  simples em ordem direta. Porém,   mal conseguia dizer meia dezena de palavras,  quando muito, sem   conceder um “demorado attimo”.

Iria ela ao dicionário conferir o significado dos termos em língua italiana por mim empregados?  Ou estaria a degustar  seu espumoso "cappuccino" ?

Verdadeiramente,  me sentia cada vez mais intrigado com o festival de solicitações de momentos  de pausa, nem tão instantes, a bem da verdade.
 - Ah, agora, falta apenas o número do telefone que o seu Renato me pediu:  51 3224...
- Um "attimo", por  favor, - e de novo  repetia-se o ritual.

Não sem antes ceder o derradeiro "attimo", disse   os algarismos faltantes, sentindo a frustração de sequer ter conseguido imaginar  um motivo crível para que  minha atenciosa interlocutora  necessitasse de tantas paradinhas, seguidas de outros tantos silêncios. Mas, finalmente: 
- Muito obrigado. A senhora foi muito gentil.
- Por nada. E o senhor me desculpe por ter interrompido tantas vezes. É que eu só tenho um braço.

Mesmo convencido de ter sido coerente com o que escrevi lá em cima, passou-me um sentimento de culpa ao perceber a trabalheira que causei à pobre italiana: escutar minhas palavras - pedir-me um tempo - descansar o telefone - apanhar a caneta - escrever – voltar a pegar o telefone...  E numa cansativa repetição.  Nunca antes, acreditem, conhecera em toda sua extensão o adjetivo desconcertante.

Já quanto à conta telefônica, se querem saber,  nada economizei; bem ao contrário.

P.S.:
1 -Tenho lido com muito carinho os amáveis comentários de leitores, ao pé de meus textos. Isso me deixa feliz. Muito obrigado a todos.

2 – O livro “Mínimas Confissões”  pode ser obtido pelos sites:
www.letraevida.com.br (Fone/fax:51 3384.8579)
www.livrariacultura.com.br
www.maneco.com.br 

Nas livrarias:
Caxias do Sul: Maneco - Mercado de Idéias - Arco da Velha - Rossi.
Porto Alegre: Cultura - Nova Roma e Cameron,Bourbon Ipiranga.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Quando surpreende o menu

Almiro Zago
  
Quando entramos num restaurante desconhecido, seja lá onde for, corremos o risco de viver experiências no mínimo interessantes. Imaginem, então, se Madrid é a cidade, e o lugar é daqueles não procurados por turistas.

Pois a sugestão da casa para o almoço oferecia primeiro e segundo pratos e sobremesa, tudo acompanhado por vinho ou água mineral, a escolher. Ainda com as pernas doloridas das caminhadas, mas antes que a fome se fizesse má conselheira, aceitamos a sugestão porque incluía autêntica paella. Ah, claro, fomos de vinho: branco para Irene e tinto para mim.

Algo semelhante havíamos conhecido nas imediações da Porta do Sol, onde um cálice de vinho ou água mineral, inclusos no preço, acompanhavam a comida.

Enquanto aguardávamos o serviço, íamos ganhando a companhia de falantes e bem-vestidos madrileños e madrileñas, gente de trinta e poucos anos, em sua maioria. E o restaurante, mesmo sem couvert artístico, surpreendeu-nos com atração extra: uma ruidosa pechada de bandejas encenada por dois apressados garçons. Terminou a performance com um deles no chão, cercado de copos, pratos e garrafas quebrados.

Nesse clima festivo, um garçom arrumou nossa mesa e trouxe duas garrafas de vinho. Alguma coisa está errada, pensei, pois esperávamos apenas duas taças da bebida. Mas o moço esclareceu: "Uma botellia por pessoa: branco para a senhora e tinto para o senhor."

Susto à parte, quiçá pudéssemos beber tudo isso durante uma festa, ou numa refeição mais demorada, mas nunca num almoço. Que desperdício!

Bem, já que o néctar dos deuses convidava, começamos a degustá-lo à espera da comida. E com ela prosseguimos, especialmente com a saborosa paella.

Mas à vez da sobremesa, perto de hora e meia do início do almoço, do vinho tinto apenas lembranças de seu aroma exalavam da garrafa. Cavalheiro que sou, passei a prestigiar o vinho branco da Irene. Para encurtar o caso, ao final, duas garrafas e duas taças vazias sobre a mesa se defrontavam com um casal contente e sem efeitos colaterais. Está certo, grandes vinhos não eram, mas garanto a excelência deles.

Bem diferente foi o que vivenciamos num pequeno restaurante com mesas na calçada, lembrando cenas de cinema passadas em Roma. Eu sabia que o preço seria salgado, pois era pertinho da Fontana di Trevi. Pensando bem, valeria a pena abrir a mão, coisa de uma vez na vida e outra na morte. Só não contava com a mínima quantidade do prato que escolhera: cinco diminutos raviolis temperados com excelente molho, devo reconhecer. Ainda bem que o pão farto salvou-me da fome.

Entretanto, há casos em que a surpresa surge de um mal-entendido, garantindo um almoço de comédia. Falo de um restaurante de Dresden, numa travessa perto do rio Elba. Estando na Alemanha, e recém-chegados de Praga, tínhamos vontade de comer algum prato à base de salsicha.

No cardápio em inglês nada encontramos; em alemão, menos ainda, e o dicionário de viagem não o encontramos onde deveria estar. De todas as maneiras tentamos levar a garçonete a nos entender. Mas ela, além do alemão, nada sabia e nem versada era na linguagem dos sinais. Como último recurso, ocorreu-me luminosa ideia: desenhar uma salsicha num pedaço de papel. E desenhamos. Mostramos à moça, e ela sorridente parecia ter captado a mensagem, pois apontou o menu para que escolhêssemos o molho. Molho holandês, quisemos.

Nem bem provamos a legítima cerveja alemã, e toda risonha aproximou-se a atendente, colocando dois pratos grandes sobre a mesa. Finalmente as salsichas, festejamos. Com uma expressão que parecia significar "bom apetite", ela se afastou, e nós, com espanto, vimos dois pratos de aspargos verdes ao molho holandês. Decepção à parte, estavam deliciosos. Porém, uma dúvida ainda hoje me traz inquietação: fomos nós que não soubemos desenhar ou a garçonete não conhecia salsicha?

                                                               ***
 Texto publicado a 27 de março de 2008.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Quando surpreende o menu

Almiro Zago

Quando entramos num restaurante desconhecido, seja lá onde for, corremos o risco de viver experiências no mínimo interessantes. Imaginem, então, se Madrid é a cidade e o lugar é daqueles não procurados por turistas.

Pois a sugestão da casa para o almoço oferecia primeiro e segundo pratos e sobremesa -, tudo acompanhado por vinho ou água mineral, a escolher. Ainda com as pernas doloridas das caminhadas, mas antes que a fome se fizesse má conselheira, a aceitamos porque incluía autêntica paella. Ah, claro, fomos de vinho: branco para Irene e tinto para mim.

Algo semelhante havíamos conhecido nas imediações da Porta do Sol, onde um cálice de vinho ou água mineral, inclusos no preço, acompanhavam a comida.
Enquanto aguardávamos o serviço, íamos ganhando a companhia de falantes e bem vestidos "madrileños" e "madrileñas", gente de trinta e poucos anos, em sua maioria. E o restaurante, mesmo sem couvert artístico, surpreendeu-nos com atração extra: uma ruidosa pechada de bandejas encenada por dois apressados garçons. Terminou a performance com um deles no chão, cercado de copos, pratos e garrafas quebrados.

Nesse clima festivo, um garçom arrumou nossa mesa e trouxe duas garrafas de vinho. Alguma coisa está errada, pensei, pois esperávamos apenas duas taças da bebida. Mas o moço esclareceu: "Uma "botellia" por pessoa: branco para a senhora e tinto para o senhor."

Susto à parte, quiçá pudéssemos beber tudo isso durante uma festa, ou numa refeição mais demorada, mas nunca num almoço. Que desperdício!
Bem, já que o nectar dos deuses convidava, começamos a degustá-lo à espera da comida. E com ela, prosseguimos, especialmente com a saborosa paella.
Mas à vez da sobremesa, perto de hora e meia do início do almoço, do vinho tinto apenas lembranças de seu aroma exalavam da garrafa. Cavalheiro que sou, passei a prestigiar o vinho branco da Irene. Para encurtar o caso, ao final, duas garrafas e duas taças vazias sobre a mesa defrontavam-se com um casal contente e sem efeitos colaterais. Está certo, grandes vinhos não eram, mas garanto a excelência deles.

Bem diferente foi o que vivenciamos num pequeno restaurante com mesas na calçada, lembrando cenas de cinema passadas em Roma. Eu sabia que o preço seria salgado, pois era pertinho da Fontana di Trevi. Pensando bem, valeria a pena abrir a mão, coisa de uma vez na vida e outra na morte. Só não contava com a mínima quantidade do prato que escolhera: cinco diminutos "raviolis" temperados com excelente molho, devo reconhecer. Ainda bem que o pão farto salvou-me da fome.

Entretanto, há casos que a surpresa surge de um mal-entendido, garantindo um almoço de comédia. Falo de um restaurante de Dresden, numa travessa perto do rio Elba. Estando na Alemanha, e recém chegados de Praga, tínhamos vontade de comer algum prato à base de salsicha.

No cardápio em inglês nada encontramos; em alemão, menos ainda e o dicionário de viagem não o encontramos onde deveria estar. De todas as maneiras tentamos levar a garçonete a nos entender. Mas ela, além do alemão, nada sabia e nem versada era na linguagem dos sinais. Como último recurso, ocorreu-me luminosa idéia: desenhar uma salsicha num pedaço de papel. E desenhamos. Mostramos à moça e ela sorridente parecia ter captado a mensagem, pois apontou o menu para que escolhêssemos o molho. Molho holandês, quisemos.

Nem bem provamos a legítima cerveja alemã, e toda risonha aproximou-se a atendente, colocando dois pratos grandes sobre a mesa. Finalmente as salsichas, festejamos. Com uma expressão que parecia significar "bom apetite", ela se afastou, e nós, com espanto, vimos dois pratos de aspargos verdes ao molho holandês. Decepção à parte, estavam deliciosos. Porém, uma dúvida ainda hoje me traz inquietação: fomos nós que não soubemos desenhar ou a garçonete não conhecia salsicha?

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Adivinha quem gosta de ler?

Almiro Zago
"A leitura engrandece a alma." (Voltaire)
"A leitura nutre a inteligência." (Sêneca)

Ruínas da Biblioteca de Celso, em Éfeso, Turquia


Se existe uma coisa que eu não possa imaginar é viver sem leitura. Ler livros, jornais, revistas, ou publicações eletrônicas, e isso nem novidade é, fortalece a contínua ligação com a vida, com o mundo exterior. Pensando bem, ler não seria um ato de liberdade, de independência?

Sem distinção de gênero literário, parece-me seja o livro o que mais fascina e encanta o leitor. Seu imaginário o leva a visitar gentes e paisagens desconhecidas e a descobertas, como a de Fernando Pessoa: "Descobri que a leitura é uma forma servil de sonhar. Se tenho de sonhar, porque não sonhar os meus próprios sonhos?"

Freqüentemente, ouve-se falar da solidão, infelicidade de muita gente. Porém, o amante da leitura desse mal não padece. E, também, entende que "é preferível e muito mais enaltecedora uma solidão povoada de lembranças do que uma promiscuidade física opaca e insignificante, ouvindo palavras vazias, inúteis", segundo Delmino Gritti, no ensaio "O futuro do passado".

Por ser o livro, certamente, o mais amado meio de levar cultura e transmitir idéias, de emocionar e cultivar a sensibilidade das pessoas, sempre se fala em estímulo à leitura, da importância de ler, de facilitar o acesso do povo ao livro. E há quem o faça de maneira muito original, como o poeta Sérgio Vaz, em São Paulo, com o sarau semanal de poesia da Cooperativa Cultural da Periferia, no Bar do Zé Batidão, inclusive com distribuição de livros. Foi o que li na crônica do escritor Ricardo Silvestrin, ZH 4/12/08, que participou de um desses encontros.

Em nosso País, de baixos e humilhantes índices de leitura, vemos muita gente de elevado grau de escolaridade e boas condições econômicas sem afeição pela leitura. Para consolo, encontramos outras pessoas determinadas a ler e que lêem, a despeito de sua parca instrução e limitados recursos. E existem, asseguro, pois em menos de dois meses conheci três desses leitores, como vou contar.

Surpreendi-me, certo dia, em plena cozinha de casa a conversar sobre livros e o gosto pela leitura com a senhora que, na ocasião, prestava serviços domésticos. Contou-me de suas preferências literárias e, inclusive, de já ter lido quase toda a série "As Brumas de Avalon", de Marion Zimmer Bradley. Além disso, vem cuidando de passar aos filhos o amor pelo livro.

Depois, ainda em minha casa, um jovem eletricista cuidava de solucionar problemas de iluminação. Por mero acaso, passei perto dele com um exemplar de "Uma temporada no inferno". E, surpreso, ouvi : "Ah, o senhor está lendo Arthur Rimbaud? Espontâneo, revelou-me razoável lista de livros já lidos e a ler, atento a um futuro vestibular assinalado em seus planos.

Todavia, a surpresa mais fascinante por mim esperava na tarde de inauguração da 54ª Feira do Livro de Porto Alegre. Na Praça da Alfândega, sentei-me numa banca de engraxate, onde era de uma mulher o trabalho de passar graxa e lustrar os sapatos. Puxando conversa, perguntei-lhe se a Feira trazia mais clientes.

- Ao contrário, - respondeu-me. - Agora, as atenções vão para os livros.

Com certa desesperança, confidenciou que gostaria muito de ler "Paula", de Isabel Allende, mas temia que o preço do livro não estivesse ao seu alcance.

Seu encanto pela leitura, disse-me, começara na infância e com "Meu pé de laranja lima", de José Mauro de Vasconcelos.

Bem, de calçados brilhando, fui embora.

Ainda naquela tarde, pude retornar para oferecer a ela, em volume usado, "Paula", da notável escritora chilena.

E aí... brilharam os olhos da engraxate leitora.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

fevereiro de 2007

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

BREVE RELATO

Marco Antônio Poglia

Conheci, no ano passado, um senhor chamado Jaime Viñas. Tinha sessenta e três anos de idade - intensamente vividos, pelas histórias que contava. Com sua voz aguda e ar entusiasmado, falava sobre suas andanças pelo sul do continente e sobre as variadas aptidões que possuía, e que lhe permitiram trabalhar em diversos setores de serviços, além de ser pescador e por muitos anos praticante de boxe e natação.

De origem uruguaia, orgulhava-se de falar a língua castelhana. Talvez por isso gostasse tanto de autores latino-americanos, como Juan Ramón Jiménes, Jorge Luis Borges, García Márquez e Neruda. Também cantarolava tangos de Carlos Gardel, que sempre considerou melhor que Piazzolla. Não pronunciava mais do que algumas frases em inglês - e outras em língua que dizia ser francesa, e eu acreditava - mas gostava muito de Alan Poe e Ernest Heminguay. E ainda Dostoievski e, no Brasil, Aluísio de Azevedo.

Já há alguns anos Seu Jaime andava pelo Bom Fim, onde acabou se estabelecendo. Morava na rua Tomás Flores, esquina com a Vasco da Gama. Rodeada de prédios pequenos e quase ausente de estabelecimentos de comércio, é uma rua sombria e muito tranqüila à noite - pelo menos aos que habitam esses prédios. Mas não era o caso do Seu Jaime, que como disse, morava na rua (a rua Tomás Flores).

Na última vez que o vi, em outubro passado, estava muito abatido. Visivelmente doente, sentado na beira da calçada com olhar triste e desfocado. "O cara que tá nessa vida tá sujeito a ficar depressivo", resmungava cabisbaixo, enquanto lhe escorria uma lágrima esbranquiçada sobre o rosto. Perguntei o motivo da sua tristeza mais pra ter assunto do que pra confirmar o que notava: todos os seus pertences (papelões, garrafas, cobertores) haviam sido levados, e sua moradia se resumia agora a um muro branco com cartazes eleitoreiros e uma calçada, limpa, para o trânsito do povo educado.

Fui embora com a sensação de que não iria mais encontrá-lo. Passados alguns dias retornei com alimentos e um cobertor, mas antes disso cumpriu-se minha profecia. Sob o laudo de coma alcoólica e registro como indigente, seu provável futuro foi servir para experimentos da faculdade de medicina. Hoje melhor compreendo por que nas ruas de Porto Alegre homens dormem abraçados em seus pertences. "Quando a gente gosta é claro que a gente cuida". Há alguns dias, caminhando na rua da República pela manhã, uma cena lastimável me aperta o peito: um menino dormia sobre a calçada, com uns farrapos de roupas e um pedaço de cobertor, entornando com um dos braços seu único e perecível objeto de apreço: uma banana madura, talvez por muitos desejada.


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

PROSTITUIÇÃO

Américo Conte

Não estou aqui, absolutamente, a tomar partido do que quer que seja e nem a defender atitudes que também independem de qualquer avaliação. Mas, simplesmente a frisar conceitos que não posso deixar de observar.

Vivemos inseridos em uma sociedade que tem como norma impressionar-se com tudo que visceralmente se relaciona ao corpo físico. É lógico que imprescindivelmente o corpo é tudo do que dispomos para a possibilidade dos contatos e relações, desde os mais afetuosos e sexuais deleites, assim como os atritos e mortais agressões. Todavia a violência imposta pelas exigências da beleza e da jovialidade com os seus vestuários de grife, como se estes fatores fossem indispensáveis para a realização de um humano, insensivelmente passam desapercebidos. E cada indivíduo que se vire e se desdobre como puder na procura e na manutenção destes atributos. A conjuntura a respeito sobre a subsistência dos caprichos sociais de um cidadão, não é condescendente com ninguém. E salve-se quem puder.

No entanto as pessoas ficam totalmente chocadas e intolerantes com o uso do corpo como meio de sobrevivência, através da prostituição sexual.

Acredito que só a disponibilidade do corpo para todo e qualquer ofício, é o menor dos malefícios. Porque as empresas, instituições e ideologias, não se contentam simplesmente com a absorção desta matéria. Elas exigem bem mais, para o sucesso de seus empreendimentos e objetivos. Querem suas mentes, suas essências e suas energias que sugam sem piedade até a última gota deste sumo. E pela falta de oportunidades e perspectivas, manipulados ou inconscientes, homens e mulheres entregam a sua saúde, sua alma e os seus sonhos a preços irrisórios, prostituindo-se e abdicando dos seus ideais em prol de supostas facilidades que aparentemente inofensivas comprometem a integridade do seu ser e os mantém escravos, dependentes e subservientes de artificialidades por uma vida inteira.

E muitas e muitas vezes, vazios e desencantados, estes seres vem suprir as suas carências nos corpos dos que abominavelmente condenam como réprobos.


AMADOS BICHINHOS

Américo Conte

A galinha não estava
no quintal, para enfeite,
mesmo os seus ovos fresquinhos
não a poupavam do batente.
Entre as plantas verdejantes,
tinha um oficio a desempenhar,
catar formigas e lesmas,
também outras pragas...
que as viessem ameaçar.
Se acaso em sua missão
ela viesse a falhar,
na cozinha, a panela,
era um espectro...
a lhe aterrorizar.
Todo bicho queridinho
sempre tem uma função,
e se ele não se comporta,
o destino, não há se ser bom.
O homem é sempre companheiro
se fizerem o que ele quer,
mas, se acaso é desacatado,
salve-se quem puder!


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

O GOSTO DO BEIJO

Karen Scopel

Doces, eles eram sua obsessão, sua mania, comia-os muito devagar, saboreando cada pedaço, deixando aquele que mais gostava por último, assim permanecia com seu gosto na boca por mais tempo. Enquanto a maioria das pessoas morde o bolo começando pela cobertura, ela não, ia comendo aos pouquinhos e, por último, se deliciava com a cobertura.

Esperava que no amor também fosse assim, queria encontrar um homem e sentir o seu gosto, de preferência se deliciar com ele para sempre. A primeira vez que viu Lucas, ele estava podando as árvores no jardim da casa vizinha, da janela do segundo andar pôde admirá-lo. Ele parecia cuidar tão bem daquelas plantas que ela chegou a pensar que um dia gostaria que ele tivesse com ela os mesmos cuidados.

No dia seguinte, convenceu a dona da casa em que trabalhava de que o jardim precisava de melhorias e que, inclusive, o da sua vizinha estava muito bonito. O novo jardineiro era entendido no assunto e de confiança, ela já havia se informado.

Foi assim que Lucas entrou em suas vidas, na dela e na de Júlia, para quem trabalhava fazia dois anos. Já no primeiro dia, esforçou-se em ser notada pelo jardineiro, de hora em hora lhe levava água ou refrescos, no meio da tarde providenciou até um lanche, imaginou que o rapaz devia ser tímido, pois mal levantava os olhos para lhe agradecer.

Veio o fim da tarde, e com ele, Júlia. Uma mulher alta, de olhos claros e cabelos longos. Naquele dia vestia uma saia de florzinhas e uma blusa branca, estava bonita. Da mesma janela em que observava Lucas, viu Júlia ultrapassando o portão, pôde ver, também, que ele finalmente ergueu os olhos, enxugou o suor do rosto um pouco envergonhado e olhou Júlia com um misto de surpresa e fascinação. Conversaram um pouco sobre as mudanças no jardim, enquanto ela permanecia na janela, sentindo um aperto no peito e um arrepio que lhe cortava a alma. Sem entender muito bem o porquê, desviou o olhar e fechou a cortina.

Nos dias que se passaram continuou tentando agradar Lucas, arrumava-se melhor, estava sempre com a boca pintada de um batom cor-de-boca, como a vendedora da loja lhe havia dito, passou a usar o perfume ganho no Natal e que reservava apenas para as datas especiais. Achava que valia a pena usá-lo para o Lucas. Para seu desespero, passou a notar que ele, ao final da tarde, antes que Júlia chegasse, usava a mangueira do jardim para se lavar, começou também a trocar a camiseta suada por outra limpa, que trazia dobrada com cuidado dentro da sua mochila de trabalhador.

Que gosto teria aquele beijo? Era só nisto que ela pensava. Acordava no meio da noite durante seus sonhos, nos quais beijava Lucas e jurava sentir seu gosto, doce e quente como uma calda de chocolate, daquelas que se coloca sobre o sorvete e que se delicía aos pouquinhos.

Lucas estava quase terminando seu trabalho no jardim, enquanto ela se desesperava, seria preciso se declarar a ele, não poderia esperar mais. Passou, então, a imaginar uma maneira de fazer isto. Pronto, ao final do dia iria convidá-lo para o tal sorvete, o do sonho, tinha certeza que aquele beijo seria seu.

O fim do dia chegou e ela, perdida em seus pensamentos, nem notou o retorno de Júlia. Era chegada a hora de falar com Lucas e fazer o tal convite. Ao chegar ao jardim, porém, suas pernas começaram a tremer e lhe pareceu que o seu mundo desabava. Lá estavam Lucas e Júlia saboreando o beijo um do outro, sentindo o gosto que ela imaginava, seria só seu a partir daquele dia.

Aos poucos foi se afastando, devagar, para que sua presença não fosse percebida, entrou na casa, pegou sua bolsa e, como se estivesse em transe, foi embora, saboreando um gosto amargo, bem diferente do que sonhou, mas que, com certeza, não esqueceria jamais.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Agora, o caso da janela

Almiro Zago
Da série Casos de viagem:

Li numa crônica do Eduardo Festugato, da sua coletânea "Sede de viver", que "Morar num apartamento é fugir da vida".

E até faz um certo sentido, pois o médico e escritor, além de apaixonado pelo viver em meio à natureza, pelo cheiro de terra, levanta interessantes e poéticas razões na sua crítica aos arranha-céus, aos prédios de apartamentos.

Suavizando a ideia, se me permite seu autor, diria que as circunstâncias econômicas e, acima de tudo, a insegurança vêm empurrando muita gente aos apartamentos em edifícios. Eu, inclusive.
Embora, no Brasil, já não se saiba de lugar a salvo da violência, não seria nas casas que as pessoas ficam mais expostas?

Sei bem o que seja viver numa casa, pois em diversas morei, todavia, em tempos menos ásperos. Só me restam nostálgicas lembranças da sensação de liberdade, de estar perto da rua e, claro, de plantar roseiras e gerânios, sálvia, alecrim e manjericão.

Disse tudo isso a pretexto de contar do prazer estético por mim experimentado, pouco tempo faz, de ver e admirar casas - às centenas - em cidades e lugarejos. Muitas de madeira e peculiar beleza arquitetônica, quase sempre rodeadas de gramados e jardins, impressionam pela caprichosa conservação. Que vontade de morar numa delas!

Agora, o invejável, o mais importante: sem grades!

Refiro apenas o imperdoável defeito de ficarem nas províncias canadenses de Ontário e Québec...

Saberiam seus habitantes o significado de morar numa casa sem os medos e temores que nos sobressaltam?

Por distração da sorte, perdi a chance de conhecer a "Casetta Piccolina in Canadà", aquela da canção do Festival de San Remo que muitas vezes anunciei no meu tempo de locutor de rádio. Nem adiantou queixar-me ao poliglota garçom do café da manhã, em Montreal. Mais do que cantar a música, ele não sabia.

Eh... mas uma velha casa, da velha Québec, pregou-me uma peça. Québec, cidade antiga e murada, com sua impecável aparência sugere ter sido acabada no dia anterior.

Deu-se na tarde quente, pelas cinco. Em cima da hora de partir, resolvi comprar água mineral em garrafa pet para levar. Estive em dois bistrôs com terraços externos repletos de gente, sem achar o que procurava.

E porque o terceiro ficava na esquina, apressado contornei o canto em leve descida, buscando a porta. Logo dei com uma abertura, e era ampla, por onde entrei caminhando em direção ao balcão.

Ali, um sujeito alto, da minha idade, pose de chefe, estava parado no recinto vazio - clientes no lado de fora. Disse-me algo como "fenêtre", janela, exibindo um sorriso mais aberto do que o da Mona Lisa, porém, não menos enigmático. Estaria a conter o riso ou uma contrariedade?

E repetiu a frase: "o senhor entrou pela janela..."

Por instantes, senti a mente confusa e me vi a pular janelas com a agilidade que já não tenho. Teria esclerosado, assim de repente?

- Não é possível...Desculpe. Mas isso aí é uma janela?

Olhei bem para um espaço largo, uns dois metros, com a base ao nível do piso por onde passei. Está certo, tecnicamente, porta não seria, embora bem cumprisse a função de passagem.

Fingi achar graça, mantendo a elegância, mas fiquei meio chateado, pois teria caído bem um toque de finesse do cara. Era esperar quando eu fosse embora e me alertar: olhe, a saída é por ali, apontando a "porta oficial", o que me faria perceber o risível engano.

Em vez disso, ao me afastar, franzindo o cenho perguntei: por onde devo sair?

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

MINHA TARDE ORIENTAL

Almiro Zago

Quando vamos a algum lugar, quase sempre somos tentados, mesmo inconscientemente, a levar, passar adiante ou a criar estereótipos sobre o modo de ser e as características de sua gente. Pode acontecer que, vez ou outra, carreguem uma pontinha de verdade, mas todo o mais vai por conta da fácil generalização. Só para ficar com um exemplo, quem já não ouviu dizer que os franceses, os parisienses em particular, são mal-humorados ou coisa assim? Pois é, mas de minha parte, em diversos contatos com eles mantidos, aquele lugar-comum não vingou. E disso dou meu fiel testemunho revelando um interessante fato acontecido comigo só para dar bem uma idéia de como podem ser superficiais ou falsos os rótulos que afixamos nos outros.

Adentramos, minha mulher e eu, a uma pequena agência de turismo, às margens do Sena, no Quartier Latin. Ali, a única atendente, mulher de pouco mais de 40 anos, diante do computador ocupava-se com um cliente ao telefone. E demorava porque a pessoa do outro lado da linha era um daqueles tipos perguntinha, querendo tudo nos mínimos detalhes.

Pouco antes, dirigindo-nos ao balcão de atendimento, éramos os únicos clientes, mas, logo depois, ao voltar-me vi que já se havia formado uma fila às nossas costas. E a atarefada funcionária sem conseguir liberar-se do seu chato tele cliente. Mas em dado momento, mostrando-se preocupada com as diversas pessoas à espera, mirou-nos com um expressivo olhar teatral que tanto poderia ser um pedido de socorro quanto - desculpem, vejam só esse sujeito ao telefone não pára mais de perguntar coisas, e vocês aí esperando...

Bem, finalmente, terminou a negociação telefônica e fomos atendidos. Queríamos pouca coisa. Só dois bilhetes para o passeio, daquela tarde mesmo, à casa e jardins de Monet, em Giverny, a uns 70 quilômetros de Paris. Damos os nossos nomes e a mulher ao computador, confiante em sua percepção auditiva, rapidamente tudo registrou, concluindo o serviço com a impressão dos bilhetes. Colocados à nossa frente, enquanto eu providenciava o pagamento, minha mulher observou que o meu nome estava errado. E a atendente, preocupada em não tomar mais tempo com a correção e impressão de outro bilhete, minimizou ponderando que não haveria problema, pois serviria, apenas, de crachá de controle interno.

Mas aí ao apanhar o papel pude conhecer minha novíssima identidade. Passara a ser Nirosago por uma criativa e exótica redução, mais parecendo um nome artístico.
Impregnado pelos bons fluídos da expectativa de admirar as lindas paisagens que inspiraram o mestre do impressionismo, olhei para ela decidido a disfarçar o aborrecimento. Ensaiando um tom compreensivo, acabei concordando:

- Está bem, está bem...

E a atendente, agradecida, exibindo aquele sorriso que vai da boca às orelhas, confortou-me de uma maneira muito original, dizendo:

- Assim o senhor pode dizer que é japonês, não é?

Não pude deixar de achar graça, pois, além do mais, foi bacana ver outra vez desmentido um clichê sobre os parisienses.

Mas, em compensação, passei aquela tarde buscando achar alguma coisa em comum entre a minha cara e a dos muitos japoneses que encontrei no passeio a Giverny.

Sem sucesso, claro.

quarta-feira, 9 de março de 2011

À tarde, no cais

Almiro Zago


Foi numa linda e fria tarde de outono que me aconteceu o caso curioso que vou contar. 

Na memória, posso ainda me ver no barco que suavemente deslizava para o atracadouro da cidade, da qual nem sabia o nome. Recordo-me do casario antigo de madeira, ao fundo, como se fosse a norueguesa Bergen. E, todavia, os poucos passageiros a bordo falavam espanhol.

No pequeno cais, grupinhos de pessoas aguardavam os viajantes. Justo na minha direção, no caminho de quem chegava, sentadas num banco, duas mulheres animadamente conversavam. E de pé, pertinho delas, quase de perfil, de cabelos negros que mal lhe cobriam o pescoço, sobressaía certa mulher, de meia-idade, diria. Pateticamente, destoava pelo seu modo de vestir, bem fora de época, embora preservasse porte elegante. Acreditaria se tivesse saído de um filme dos anos 30, do século passado.

E, para meu espanto, me observava, acompanhando-me com o olhar, sem sequer um esboço de sorriso nos lábios, enquanto eu cuidava de desembarcar.  Reconheço, a esquisita situação deixou-me desconcertado.
    
Ela estava à minha espera, claro, mas por quê?

Finalmente, pisei em terra firme; e a estranha figura voltou-me as costas, afastando-se devagarzinho. E no calculado lento caminhar, de sua mão direita deixou cair um lencinho azul. Sabe, aquele gesto fingidamente casual de certas personagens de antigos romances, para dar chance a que o homem o apanhe, como pretexto para a abordagem ao entregá-lo a sua dona.

— Olhe... é para o senhor, o lencinho, disse-me, em espanhol, uma daquelas mulheres  conversadeiras.

Embora quisesse ignorar aquilo tudo, reuni firmeza e, no mesmo idioma, me saiu:    
  
— Soy un hombre casado, señora, tengo hijos e una linda mujer.

— Ah... que romântico.    
            
E ao erguer o olhar, seguindo em frente, quedei-me atônito diante do cais vazio.

Pois, aí, sobreveio a nebulosa passagem entre o sonho e a realidade, onde me encontrei na vã tentativa de decifrar o enigma.

Pelo menos, ao final, uma certeza ficou: fiz bonito lá em casa.  

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A neve da memória


Almiro Zago

Antes mesmo de conhecer a neve, habitavam seus gélidos flocos o meu imaginário, das tantas vezes que ouvira contar sobre o drama dos antepassados italianos sitiados pela neve durante o inverno, com escassos meios de aquecimento.

Poetas e cantores celebram essa encantada partícula de gelo, mas “A Balada da Neve”*, de Augusto Gil, foi a primeira a emocionar-me com o lado poético desse lindo fenômeno da natureza. Sim, beleza e poesia, quando se tem abrigo contra o frio.

Nestas paragens de pouco nevar, e ainda assim em restritas regiões, certamente essa raridade justifica tanto fascínio pelos translúcidos e esvoaçantes flocos. E quando aparecem, por minutos ou horas, rendem festivas reportagens e manchetes em toda a mídia, além de levar entusiasmados turistas aos lugares altos das serras do Rio Grande e Santa Catarina.

Dizem meus registros caxienses que aos nove anos, pela primeira vez, senti no rosto a gelada carícia de uma nevada. Foi de manhã, a caminho da escola, todo faceiro sob o guarda-chuva, digo, guarda-neve. Porém, nada gostei do que a professora fez comigo. Só porque estava nevando, mandou-me para casa.

Inúmeras vezes iria admirar paisagens nevadas no cinema, nos cinejornais europeus, como o “Atualidades Francesas”, que frequentemente exibia competições de esqui na brancura invernal dos Alpes.

Até ali, fora nossa vedete só motivo de alegria e deslumbramento.

Mas um filme houve sobre Franz Schubert (1797- 1828), marcado intensamente pela tristeza que infundia no espectador, exatamente na cena do cortejo fúnebre para o enterro do grande clássico austríaco. Em meio de forte nevasca, iam     os acompanhantes, castigados por um frio polar, revelando nos roxos rostos expressões de profunda dor e angústia pela precoce perda.  

Pois aquela imagem de consternação reapareceria na memória, anos mais tarde, na vida real, numa gélida manhã com os pingos de chuva rendendo-se aos abundantes flocos de neve. E meu fusca bege avançava pela estrada de Caxias a Flores da Cunha, tendo como destino o sepultamento de uma pessoa muito querida. Continuamente varrida pelo limpador do para-brisa, a neve e sua sensação de frio mais entristecia o coração.

Estrada do Morro da Igreja - Urubici-SC

Um irrepetível panorama

Vivenciei, senão muitas, um bom número de ocorrências da neve sul brasileira, sempre chegando de surpresa, como no dia em que comprei uma grossa japona, numa manhã de inverno de ar primaveril. Deixei-a na loja para apanhá-la quando chegasse o frio. À tardinha, porém, a roupa já me protegia da frialdade que chegara nevando. Também sem aviso, nevou na tarde de um sábado, justo motivo para faltar à festa do Dia dos Pais na escola das crianças.

Ah, mas a nevada das nevadas, a mais intensa e linda, semelhante àquelas dos postais e dos filmes, aconteceu em 1965, lá por 20 de agosto. Acomodado num ônibus, pelas cinco da tarde, ia observando esparsos flocos perdidos no ar. Ao anoitecer, copiosa já era a precipitação, cobrindo telhados, ruas e calçadas, tudo. 

Mas a madrugadinha do dia seguinte reservaria espetáculo encantador. À luz de velas, porque faltara energia, preparei-me para ir para o meu trabalho de locutor na Rádio Princesa, onde deveria estar às seis horas.  

Ao abrir a porta para sair, vivi a sensação de avistar uma cidade de cartão de Natal, toda branca. Mas era Caxias do Sul, como se um imenso e alvo lençol sobre ela tivesse sido estendido, abrindo um quadro de raríssima e inesquecível beleza.  

Ainda inebriado, dando os primeiros passos lá fora, afundei na neve fofa, pois chuviscara, resultando sapatos encharcados, naquela friagem...

Não obstante o tempo, continuo achando bonita e poética a neve. Sigo amando as brancas paisagens, mas se estiver por perto, prefiro o lado de dentro das janelas, ou vê-las nas telas da televisão e dos cinemas.

11.08.20012   
     
* Balada de Neve

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil (l873-1929 - Portugal), em Luar de Janeiro